A regente Ana Leopoldovna e a dama de honra Juliana: possivelmente a primeira relação lésbica documentada na história da Rússia
«... passa a maior parte do tempo nos aposentos da sua favorita, Mengden.»
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A regente Ana Leopoldovna esteve à frente da Rússia durante apenas um ano e continua a ser uma figura relativamente pouco conhecida. É raro encontrá-la nos manuais escolares. No entanto, a sua relação com a dama de honra Augusta Juliane von Mengden desperta um interesse particular: trata-se, possivelmente, de um dos primeiros testemunhos documentados de amor lésbico na história da Rússia.
Ana Leopoldovna e Juliana eram unidas por laços muito estreitos. Os historiadores debateram longamente se esta relação seria uma ligação amorosa ou uma amizade profunda. Os factos e as fontes, incluindo os despachos diplomáticos e a correspondência pessoal, permitem reconstruir um quadro complexo da vida íntima da corte russa no século XVIII.
Os primeiros anos
Isabel Catarina Cristina (Elisabeth Katharina Christine), a futura regente Ana Leopoldovna, nasceu a 18 de dezembro de 1718 no ducado de Meclemburgo-Schwerin, no norte da Alemanha. Era filha do duque Carlos Leopoldo de Meclemburgo e de Catarina Ivanovna, sobrina de Pedro I. Esta união foi o resultado da diplomacia matrimonial.
A infância da princesa decorreu num ambiente de grave conflito familiar: o duque distinguia-se por um caráter despótico e preferia abertamente outras mulheres à sua esposa, incluindo a sua própria sobrinha. Na Alemanha, Catarina Ivanovna foi alcunhada de “duquesa moscovita selvagem” e tratada com hostilidade.
Em 1722, incapaz de suportar os maus-tratos do marido, Catarina Ivanovna fugiu para a Rússia com a filha. O casamento não foi formalmente dissolvido, mas ela nunca mais voltou junto do marido.
A 23 de maio de 1733, Isabel Catarina Cristina converteu-se à ortodoxia e recebeu o nome de Ana Leopoldovna. Este passo abria-lhe o caminho para a sucessão ao trono. O rito do batismo foi celebrado pelo mais proeminente ideólogo das reformas de Pedro I, o arcebispo de Novgorod Teófanes Prokopovitch (russo: Feofan Prokopovitch; Феофан Прокопович).
Embora a princesa só tenha mudado de nome onze anos após a sua chegada à Rússia, doravante será chamada Ana no texto.
A juventude na Rússia
Segundo as memórias do nobre de Holstein Friedrich Wilhelm von Bergholz, Ana, “uma criança muito alegre de cerca de quatro anos”, cresceu e estudou no palácio de Izmailovo, em Moscovo. Longe das intrigas da corte, levou uma vida comparativamente simples, convicta de que não tinha pretensões ao trono russo. Foi educada num ambiente descontraído, sem formalidades excessivas. Frequentava bailes que, por vezes, se prolongavam por dez horas.
A situação mudou em 1730, quando o trono coube à tia da princesa, Ana Ivanovna. A imperatriz, sem filhos, distinguiu de imediato a sobrinha e tomou-a sob a sua proteção especial. Ana recebeu uma casa junto ao Neva, uma ordem honorífica e uma pensão considerável. Contrataram-se para ela professores de alemão, francês e russo.
Entretanto, a mãe de Ana, segundo os testemunhos da época, “entregava-se fortemente às bebidas alcoólicas” e afastava-se da filha. Em junho de 1733, morreu “de doença”. Ana ficou praticamente sem parentes próximos nem amigas fiéis, à exceção da tia imperatriz. A partir daí, a jovem foi sendo cada vez mais arrastada para o meio cortesão, onde os dignitários disputavam a influência e a viam como um recurso político.
“A czarina ama-a como se fosse sua própria filha, e ninguém duvida de que ela está destinada a herdar o trono.”
— Jacobo Francisco Fitz-James Stuart y Burgh, duque de Líria e Jérica, enviado espanhol na corte russa (a partir de despachos)

A procura de um marido e as primeiras paixões
Quando Ana fez catorze anos, começaram a procurar-lhe um marido para um casamento dinástico. A escolha recaiu sobre o príncipe de dezoito anos António Ulrico de Brunsvique-Volfembutel (Anton Ulrich von Braunschweig-Wolfenbüttel), filho de um duque alemão. Este jovem magro e de baixa estatura chegou a São Petersburgo para a cortejar, mas depressa se percebeu que a carreira militar o interessava muito mais do que a própria Ana.
Ana encontrou refúgio na leitura. Os romances franceses atraíam-na especialmente: permitiam-lhe afastar-se por algum tempo da insípida rotina da corte e da indiferença do noivo.
Outra das suas paixões foi o enviado saxão, o conde Moritz Karl von Lynar — um homem de quarenta anos e, segundo os contemporâneos, muito atraente. Em 1735, a imperatriz Ana Ivanovna, ao saber da correspondência secreta entre os dois, enfureceu-se. Despediu imediatamente a precetora da princesa, madame Aderkas, acusando-a de ser conivente com esta relação, exilou-a para o estrangeiro e exigiu que Lynar fosse chamado de volta de São Petersburgo.
“A princesa Ana, que é vista como herdeira presumível, encontra-se agora numa idade em que se podem criar expectativas, sobretudo tendo em conta a excelente educação que recebeu. Mas não possui beleza nem graça, e o seu espírito ainda não revelou quaisquer qualidades brilhantes. É muito séria, fala pouco e nunca ri; isto parece-me muito pouco natural numa rapariga tão jovem, e julgo que por trás dessa seriedade se esconde antes estupidez do que sensatez.”
— Jane Vigor, memorialista britânica e esposa do residente inglês Claudius Rondeau, “Cartas de uma senhora que residiu alguns anos na Rússia”
O início da amizade com Juliana Mengden
Após a separação de Lynar, encontrando-se sob o controlo rigoroso da tia imperatriz, a jovem Ana começou a aproximar-se da sua dama de honra, Juliana Mengden.
Augusta Juliane von Mengden nasceu a 22 de maio de 1719 na família de um barão sueco-livónio. A família pertencia à antiga e influente nobreza germano-báltica. O aparecimento de Juliana na corte não foi um acaso: após o fim da Grande Guerra do Norte, a integração das elites bálticas na estrutura administrativa imperial tornou-se um elemento fundamental da política de Estado. A nomeação da jovem baronesa como dama de honra da potencial herdeira do trono fazia parte de um sistema de distribuição de cargos cortesãos entre a nobreza leal.
Juliana tornou-se rapidamente a amiga íntima e confidente de Ana. Segundo os testemunhos da época, a sua relação ultrapassava os limites de uma amizade comum. Passavam longas horas a sós — em trajes caseiros, vestidas com desleixo e de cabelo solto. Isto deu origem na corte a rumores sobre a sua intimidade “não convencional”.
“A princesa não possuía uma beleza deslumbrante, mas era uma loira bonita, bondosa e meiga, ao mesmo tempo sonolenta e preguiçosa; não gostava de nenhum trabalho e passava as horas ociosas com a sua dama de honra favorita, Juliana von Mengden, por quem nutria um sentimento de rara amizade.”
— Nikolai Ivanovitch Kostomarov, historiador russo, “A História Russa nas biografias das suas principais figuras”
O enviado prussiano Axel von Mardefeld relatava ao rei Frederico II:
“Ninguém consegue compreender a origem da atração sobrenatural da Grã-Duquesa por Juliette [Juliana]; por isso, não me surpreende que o público acuse esta rapariga de seguir os gostos da célebre Safo…”
— Axel von Mardefeld, enviado prussiano (a partir de um despacho ao rei Frederico II)
Os rumores sobre uma ligação não convencional atingiram tais proporções que a imperatriz Ana Ivanovna tomou uma decisão sem precedentes: ordenou que a jovem Juliana fosse submetida a um rigoroso exame ginecológico e anatómico. Uma comissão especial devia apurar se a dama de honra era hermafrodita.
O relatório foi favorável a Juliana: estabeleceu-se que era “uma donzela em todas as suas partes, sem quaisquer sinais do sexo masculino”. Este exame médico demonstra que a homossexualidade feminina na Rússia do século XVIII não era impensável, embora a medicina moderna incipiente a associasse exclusivamente a desvios fisiológicos. A confirmação da “normalidade” anatómica afastou formalmente a ameaça legal, embora os murmúrios na corte não tenham cessado.

Um casamento sem amor e o nascimento do herdeiro
Com o tempo, António Ulrico ganhou experiência militar e conquistou gradualmente o favor da imperatriz Ana Ivanovna. Para Ana Leopoldovna, os seus êxitos permaneciam indiferentes. “O príncipe não me agrada. Mantêm-me apenas para os partos”, dizia.
Apesar disso, o casamento realizou-se com grande pompa: cortejo solene, carruagens ornamentadas, três fontes de vinho, salvas de artilharia a partir da Fortaleza de Pedro e Paulo, grande baile e fogo de artifício. O principal objetivo desta união era o nascimento de um herdeiro para o trono.
“Todas estas receções foram organizadas para unir duas pessoas que, ao que me parece, se odeiam de todo o coração.”
— Jane Vigor, “Cartas de uma senhora que residiu alguns anos na Rússia”
A 23 de agosto de 1740, Ana deu à luz um filho, a quem chamaram Ivan (russo: Ioann; Иоанн) — em honra do bisavô, irmão de Pedro I. A Rússia tinha um herdeiro.
A ascensão ao poder
Pouco depois, a imperatriz Ana Ivanovna adoeceu e, pressentindo a aproximação da morte, publicou um manifesto declarando o bebé Ivan herdeiro do trono russo. O regente, porém, não foi a mãe da criança, mas o favorito da imperatriz, o alemão Ernst Johann von Biron.
Biron manteve-se no poder apenas um mês. Na noite de 20 de novembro de 1740 ocorreu um golpe de palácio. O seu verdadeiro arquiteto e executor físico foi o marechal de campo Burkhard Christoph von Münnich.
Nessa noite, ele chegou ao Palácio de Inverno; os seus ajudantes entraram pelo guarda-roupa e acordaram Juliana Mengden. Depois de falar com Münnich, Juliana foi acordar Ana. A regente apresentou-se aos oficiais da guarda e autorizou a detenção de Biron, queixando-se das suas opressões. A organização e a parte coerciva do golpe continuaram a ser uma operação militar de Münnich, enquanto Ana atuou como figura de proa. Biron foi preso e exilado.
O pai de Ivan, António Ulrico, não demonstrava quase nenhum interesse pelos assuntos do Estado. Por isso, Ana Leopoldovna, que tinha então apenas 22 anos, assumiu as funções de regente e tornou-se a governante de facto da Rússia.
Desconstrução do mito da “governante preguiçosa”
Em agradecimento pelo seu apoio, Ana Leopoldovna recompensou generosamente Juliana Mengden. Esta recebeu os melhores trajes, uma propriedade na Livónia e avultados empréstimos em dinheiro.
“Estas donzelas [damas de honra], que pouco tinham visto do mundo, não possuíam a inteligência necessária para conduzir intrigas palacianas, por isso não se envolviam nelas. Mas Juliana, a favorita da governante, quis participar nos assuntos, ou, melhor dizendo, preguiçosa por natureza, conseguiu transmitir esse vício à sua soberana.”
— Christoph Hermann von Manstein, memorialista e participante na prisão de Biron, “Memórias sobre a Rússia”
No início do governo de Ana Leopoldovna, a população de São Petersburgo atingira os 70 000 habitantes. Em frente ao Almirantado ainda havia hortas, a avenida Névski não estava totalmente construída e os cidadãos podiam banhar-se livremente nus no rio Fontanka.
“Não havia criatura menos capaz de estar à frente da administração do Estado do que a boa Ana Leopoldovna… Sem se vestir, sem se pentear, com um lenço atado à cabeça, deveria apenas sentar-se nos aposentos interiores com a sua inseparável favorita, a dama de honra Mengden.”
— Serguei Mikhailovitch Soloviov, historiador russo, “História da Rússia desde os tempos mais antigos”
A imagem de uma regente preguiçosa e politicamente inerte enraizou-se firmemente na historiografia clássica; no entanto, foi construída propositadamente pela propaganda de Isabel Petrovna para legitimar o seu próprio golpe de Estado de 1741. Era vital para Isabel apresentar o reinado da sua antecessora como um período de caos.
Os historiadores modernos refutam este mito. Durante o curto ano da regência, a Coleção Completa das Leis do Império Russo registou 185 atos legislativos aprovados com a participação pessoal de Ana Leopoldovna. Segundo o testemunho do grande marechal da corte Ernst von Münnich (filho do marechal de campo), a governante “nunca se aborrecia de ouvir e decidir assuntos… em nenhum momento”.
Ana Leopoldovna tomou uma série de medidas institucionais importantes. A 23 de novembro de 1740, criou o cargo de reketmeister (mestre de petições) para receber e examinar as súplicas, a fim de combater a morosidade burocrática e a corrupção no Senado e no Sínodo. Dedicou-se com energia à preparação de relatórios sobre as receitas e as dívidas do Tesouro. Na política externa, o seu governo confirmou os artigos da Paz de Belgrado de 1739, conseguindo que o Império Otomano reconhecesse os soberanos russos como imperadores.
A fraqueza de Ana não residia na preguiça, mas na inexperiência política, na credulidade excessiva e na incapacidade de manter o equilíbrio entre as fações rivais.

Vida privada e uma união poliamorosa
Ana Leopoldovna distinguia-se por uma clemência rara para a sua época. Fez regressar do exílio muitos nobres caídos em desgraça, incluindo o vice-chanceler Alexei Petrovitch Bestujev-Riumin e os familiares do sereníssimo príncipe Alexandre Danilovitch Menchikov. Revogou também a proibição introduzida por Pedro I de construir edifícios de pedra fora de São Petersburgo e atenuou as restrições para os que desejavam fazer votos monásticos.
“Os seus atos eram francos e sinceros, e nada lhe era mais insuportável do que a dissimulação e o constrangimento tão necessários na corte, razão pela qual aconteceu que pessoas, habituadas no reinado anterior às lisonjas mais grosseiras, a consideravam injustamente altiva e supostamente desdenhosa de todos. Sob uma aparência de frieza exterior, era interiormente indulgente e sincera… […] vestia-se sempre com desagrado quando, durante a sua regência, tinha de receber e aparecer em público…”
— Ernst von Münnich, grande marechal da corte e memorialista, “Memórias”
Sentia-se cada vez mais atraída pelo isolamento e pelo convívio com um círculo restrito de pessoas íntimas. O embaixador britânico Edward Finch, que jogava regularmente às cartas com a regente, deixou testemunhos francos sobre a natureza da sua vida íntima.
Nos despachos para Londres, relatava que a governante amava Julia “tão apaixonadamente como só um homem ama uma mulher”. Para intensificar o efeito, o embaixador acrescentava: “A paixão de um amante por uma nova favorita é uma mera brincadeira em comparação com isto”. Finch assinalava o mais alto grau de intimidade doméstica das mulheres: não só dormiam na mesma cama, como se encontravam nela “sem qualquer outra roupa além de uma anágua”.
“Não posso deixar de reconhecer nela consideráveis dotes naturais, uma certa perspicácia, extraordinária bondade e humanidade, mas é, sem dúvida, demasiado reservada por temperamento: as grandes assembleias fatigam-na, passa a maior parte do tempo nos aposentos da sua favorita Mengden, rodeada pelos parentes desta dama de honra.”
— Edward Finch, embaixador britânico (a partir de um despacho)
O conde Moritz Lynar, que ela mandara regressar da Saxónia, voltou a aproximar-se de Ana. A historiografia popular chama tradicionalmente a Lynar o único amante de Ana, remetendo Juliana para o papel de um cómodo disfarce. Contudo, os investigadores observam que Ana estava apaixonadamente apaixonada por Lynar, mas que Juliana também nutria sentimentos por ele. Lynar era o amante de Ana, Juliana era a amada de Ana, e ambas as mulheres eram devotas a Lynar.
“A governante continua a nutrir aversão pelo marido; acontece com frequência que Julia Mengden lhe recusa a entrada no quarto desta princesa; por vezes é até obrigado a abandonar o leito.”
— Jacques-Joachim Trotti, marquês de La Chétardie, diplomata francês (a partir de um despacho)
Neste contexto, o plano de Lynar de casar com Juliana Mengden faz sentido. O noivado, que teve lugar em julho de 1741 com a bênção de Ana, não foi um mero cálculo político. Esta decisão permitia legitimar a presença de Lynar nos aposentos interiores do palácio e ilibava a governante das acusações formais de pecado.
“Tinha frequentemente encontros no terceiro jardim do palácio com o seu favorito, o conde Lynar, para onde se dirigia sempre acompanhada da dama de honra Julia… e quando o príncipe de Brunsvique desejava entrar neste mesmo jardim, encontrava os portões fechados, e as sentinelas tinham ordem de não deixar entrar ninguém… Como Lynar vivia junto aos portões do jardim na casa de Rumiantsev, a princesa mandou construir nas proximidades uma casa de campo, que é hoje o Palácio de Verão. No verão mandava colocar o seu leito na varanda do Palácio de Inverno; e, embora se colocassem biombos para ocultar a cama, do segundo andar das casas vizinhas do palácio era possível ver tudo.”
— Burkhard Christoph von Münnich, marechal de campo, “Ensaio que dá uma ideia da forma de governo do Império Russo”
O camareiro Fiódor Andreievitch Apraksin censurou certa vez Ana Leopoldovna por “jantar a sós com a dama de honra von Mengden, quando seria mais decoroso fazê-lo com o seu esposo, e que a referida dama de honra gozava de grande favor junto de Sua Alteza Imperial”. Em resposta, Ana insultou-o, chamando-lhe “canalha russo”.
Ao contrário de Ana Ivanovna, que preferia divertimentos faustosos, Ana Leopoldovna não gostava de caça nem de equitação. Eram-lhe mais próximas as ocupações tranquilas; em particular, criava aves com entusiasmo. Nos seus aposentos viviam um papagaio, um pombo egípcio, um estorninho domesticado e dois rouxinóis.
Em julho de 1741, Ana deu à luz uma filha, Catarina. No quarto das crianças encontravam-se permanentemente uma ama-seca, uma ama-de-leite e a dama de honra favorita Juliana Mengden.

O golpe e a queda
O período de relativa calma foi interrompido a 8 de agosto de 1741, quando a Suécia declarou guerra à Rússia, esperando recuperar os territórios perdidos sob Pedro I. As hostilidades começaram na Finlândia. Neste contexto, São Petersburgo ficou temporariamente quase sem tropas capazes de proteger Ana.
A queda de Ana Leopoldovna foi acelerada pela correlação geopolítica de forças na Europa. O rumo da política externa da Rússia, dirigido pelo vice-chanceler Heinrich Johann Friedrich Ostermann, apoiava-se numa sólida aliança com a Áustria contra a Prússia. Isto não agradava de todo à França. O embaixador francês, o marquês de La Chétardie, recebeu a missão direta de derrubar o regime de Ana Leopoldovna e tornou-se o principal financiador da conspiração da filha de Pedro I, a czarévna Isabel Petrovna.
A tragédia de Ana foi agravada pela sua cegueira política. Recebeu repetidos avisos sobre a preparação do golpe por parte de Ostermann e do vice-chanceler Mikhail Gavrilovitch Golovkin. Na véspera do golpe, o grande marechal da corte Reinhold Gustav von Löwenwolde entregou à governante um bilhete instando-a a prender Isabel, ao que Ana respondeu: “Perguntem ao conde Löwenwolde se enlouqueceu? Tudo isto são mexericos vazios, eu própria sei melhor do que ninguém que não temos nada a temer da czarévna.”
Na noite de 6 de dezembro de 1741 ocorreu um golpe de palácio. Isabel Petrovna, com a ajuda dos granadeiros do Regimento Preobrajenski, derrubou a regente sem resistência. Enquanto os cortesãos de Ana se divertiam num baile, os conspiradores irromperam nos aposentos e prenderam todos, incluindo o menor imperador Ivan.
“Tendo terminado na casa da guarda, Isabel dirigiu-se ao palácio, onde não encontrou qualquer resistência por parte das sentinelas, à exceção de um suboficial, que mandou imediatamente prender. Entrando no quarto da governante, que dormia juntamente com a dama de honra Mengden, Isabel disse-lhe: ‘Irmãzinha, está na hora de se levantar!’ A governante, ao acordar, disse-lhe: ‘Como, é a senhora!’ Ao ver os granadeiros atrás de Isabel, Ana Leopoldovna adivinhou do que se tratava e começou a suplicar à czarévna que não fizesse mal nem aos seus filhos nem à menina Mengden, de quem não gostaria de se separar.”
— Serguei Mikhailovitch Soloviov, “História da Rússia desde os tempos mais antigos”
O exílio e os interrogatórios
Após a prisão, iniciou-se o processo judicial. O marechal de campo Münnich foi condenado ao esquartejamento, e Juliana Mengden à pena de morte. No último momento, Isabel substituiu ambas as sentenças pelo exílio. O tribunal declarou Ana Leopoldovna e o marido culpados de usurpação do poder.
Antes da partida, foi permitido a Ana Leopoldovna dirigir à nova imperatriz um último pedido. Pediu apenas uma coisa: que lhe permitissem permanecer junto de Juliana Mengden. Isabel atendeu este pedido. Juliana seguiu voluntariamente a amiga para o exílio.
Inicialmente, Isabel anunciou a expulsão da família de Brunsvique para a Europa. A família foi levada para a fortaleza de Dünamünde (atualmente Daugavgrīva, nos limites de Riga), onde foram retidos durante quase um ano. Aqui, em 1743, Ana deu à luz uma filha, Isabel.
Iniciou-se uma correspondência entre Riga e São Petersburgo. Isabel Petrovna abriu uma investigação sobre o desaparecimento de joias da coroa. A Chancelaria Secreta procurava um pretexto para a perseguição criminal da família deposta, e a acusação de roubo de diamantes tornou-se um instrumento conveniente de descrédito. Juliana explicou pormenorizadamente a quem tinham sido entregues as joias.
Num dos interrogatórios, afirmou que a própria Ana Leopoldovna partira algumas joias. A imperatriz Isabel ordenou aos guardas que interrogassem Ana sobre o destino dos diamantes, acrescentando um pós-escrito pessoal: “E se ela começar a negar que deu diamantes a quem quer que seja, diz-lhe que serei obrigada a interrogar Julia; por isso, se tem pena dela, não a deve deixar chegar a tal tormento.”
O novo poder compreendia perfeitamente o ponto fraco da regente deposta. Ana, ao que parece, rejeitou as acusações, uma vez que não houve perseguições posteriores e Juliana foi deixada em paz.
Os últimos anos
Mais tarde, Isabel ordenou a transferência da família para o interior do país — para a fortaleza de Ranenburg (a atual Tchaplíguin, no Oblast de Lipetsk). Depois, em 1744, a imperatriz ordenou que a família de Ana Leopoldovna fosse enviada para o norte, para Kholmogory, na província de Arkhangelsk.
Foi em Ranenburg que ocorreu a separação definitiva de Ana e Juliana. Por ordem de Isabel, foi ordenado à dama de honra que permanecesse na fortaleza. Os criados de Ana compreenderam que a separação seria um golpe rude para ela e enviaram à capital um pedido para permitir que Juliana viajasse com eles, mas não obtiveram resposta. Ana nunca mais viu a sua fiel amiga.
Ao chegarem a Kholmogory, os prisioneiros não puderam prosseguir viagem para o Mosteiro de Solovetski (russo: Solovetski monastyr; Соловецкий монастырь) devido ao gelo no Dvina Setentrional. Como resultado, foram deixados ali mesmo, em condições de rigoroso sigilo no território da Casa Episcopal da Assunção. As condições de detenção eram duras.
A morte de Ana e o destino de Juliana
O destino póstumo dos membros da família caída em desgraça foi determinado de antemão. Isabel publicou um decreto segundo o qual, em caso de morte de alguém da família, o corpo deveria ser imediatamente transportado para a capital.
No exílio de Kholmogory, Ana Leopoldovna deu à luz mais dois filhos: Pedro (em março de 1745) e Alexei (em fevereiro de 1746).
Separada de Juliana e exausta pelos partos nas condições de um inverno nórdico sem assistência médica adequada, a 20 de março de 1746 Ana morreu de febre puerperal. Tinha 27 anos. A notificação oficial chamava-lhe secamente a “Princesa Ortodoxa”. O seu corpo, num caixão selado, foi transportado para São Petersburgo para ser sepultado na Igreja da Anunciação do Mosteiro de Alexandre Névski.

O destino do primogénito de Ana, o deposto imperador Ivan Antonovitch, revelou-se a página mais terrível da história da dinastia Romanov. O menino foi arrancado aos pais e mantido em total isolamento. Mudaram-lhe o nome para “Grigori” e, em 1756, foi secretamente transportado para a Fortaleza de Shlisselburg sob o nome de “prisioneiro sem nome”. A 27 de julho de 1764, durante uma tentativa de golpe, o prisioneiro de 23 anos foi apunhalado até à morte pelos seus guardas. O príncipe António Ulrico passou o resto da vida em Kholmogory, cegou e morreu em 1774.
Juliana Mengden permaneceu no exílio em Ranenburg durante longos 18 anos. Só após a subida ao trono de Catarina II, em 1762, obteve a libertação e autorização para regressar à sua Livónia natal. Juliana instalou-se na propriedade materna de Jērkule, perto de Krimulda, raramente a deixava e dedicou-se à gestão da propriedade.
Até ao fim dos seus dias, recordava com relutância os anos de corte, levando para o túmulo o segredo de uma das possíveis primeiras uniões LGBT do século XVIII. Juliana Mengden morreu a 21 de outubro de 1787, sobrevivendo a Ana 41 anos, e foi sepultada no cemitério de Carnikava.
Bibliografia e fontes
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