A imperatriz Ana Leopoldovna e a dama de honra Juliana: possivelmente a primeira relação lésbica documentada na história da Rússia
«... passa a maior parte do tempo nos aposentos da sua favorita, Mengden.»
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A imperatriz Ana Leopoldovna governou a Rússia durante apenas um ano e continua a ser uma figura relativamente pouco conhecida. É raro encontrá-la nos manuais escolares. No entanto, a sua relação com a dama de honra Juliana von Mengden desperta um interesse particular: trata-se, possivelmente, de um dos primeiros testemunhos documentados de amor lésbico na história da Rússia.
Ana Leopoldovna e Juliana eram, de facto, unidas por laços muito estreitos. Permanece, contudo, em aberto a questão de saber se esses testemunhos devem ser entendidos como sinal de uma relação amorosa ou se podem ser explicados apenas por uma amizade intensa. Os factos e as fontes reunidos neste artigo permitem ao leitor tirar as suas próprias conclusões.
Os primeiros anos
Isabel Catarina Cristina nasceu a 18 de dezembro de 1718 no ducado de Meclemburgo-Schwerin, no norte da Alemanha. Era filha do duque Leopoldo de Meclemburgo e de Catarina Ivanovna, sobrinha de Pedro, o Grande. Este casamento foi, em grande medida, fruto da diplomacia matrimonial. A infância da princesa decorreu num ambiente estranho à sua mãe: na Alemanha, Catarina Ivanovna era vista como a “duquesa moscovita selvagem” e tratada com hostilidade.
Em 1722, incapaz de suportar os maus-tratos do marido, Catarina Ivanovna regressou à Rússia com a filha. O casamento não foi formalmente dissolvido, mas ela nunca mais voltou junto do marido.
Em 1733, Isabel Catarina Cristina converteu-se à ortodoxia e recebeu o nome de Ana Leopoldovna. Embora isso tenha ocorrido onze anos após a sua chegada à Rússia, por conveniência chamar-lhe-emos Ana desde o início.
A juventude na Rússia
“Uma criança muito alegre, de cerca de quatro anos” — Ana cresceu e estudou no palácio de Izmailovo, em Moscovo. Longe das intrigas da corte, levou uma vida relativamente simples, convicta de que não tinha pretensões ao trono russo. Foi educada num ambiente descontraído, sem formalidades excessivas. Frequentava bailes que, por vezes, se prolongavam por dez horas.
A situação mudou em 1730, quando o trono coube a Ana Ivanovna — tia e homónima de Ana Leopoldovna. A imperatriz, sem filhos, distinguiu de imediato a sobrinha e tomou-a sob a sua proteção especial. Ana recebeu uma casa junto ao Neva, uma ordem honorífica e uma pensão considerável. Contrataram-se para ela professores de alemão, francês e russo.
Ao mesmo tempo, a mãe de Ana, segundo os testemunhos da época, “entregava-se em excesso às bebidas alcoólicas” e afastava-se cada vez mais da filha. Em junho de 1733, morreu “de doença”. Ana ficou praticamente sem parentes próximos nem amigas fiéis, à exceção da tia imperatriz. A partir daí, foi sendo cada vez mais arrastada para o meio cortesão, onde os magnatas disputavam a influência e a viam como um trunfo político.
“A czarina ama-a como se fosse sua própria filha, e ninguém duvida de que ela está destinada a herdar o trono.”
— o enviado espanhol na corte russa Jacobo Francisco Fitz-James Stuart, duque de Líria e Jérica

A procura de um marido e as primeiras paixões
Aos catorze anos, começaram a procurar para Ana um marido para um casamento dinástico. A escolha recaiu sobre o príncipe António Ulrico de Brunsvique, de dezoito anos, filho de um duque alemão. Este jovem, magro e de baixa estatura, chegou a São Petersburgo para cortejar Ana, mas depressa se percebeu que a carreira militar o interessava muito mais do que ela.
Ana encontrou refúgio na leitura. Os romances franceses atraíam-na especialmente: permitiam-lhe, durante algum tempo, afastar-se da insípida rotina da corte e da indiferença do noivo.
Outra paixão sua foi o diplomata saxão conde Moritz Lynar — um homem de quarenta anos e, segundo os contemporâneos, muito atraente. A sua relação parece ter permanecido platónica. Ainda assim, os rumores deste romance chegaram à corte, e em breve Lynar foi mandado de volta a Dresden.
“A princesa Ana, que é vista como herdeira presumível, encontra-se agora numa idade que permite criar expectativas, sobretudo tendo em conta a excelente educação que recebeu. Mas não possui beleza nem graça, e o seu espírito ainda não revelou quaisquer qualidades brilhantes. É muito séria, fala pouco e nunca ri; isto parece-me muito pouco natural numa rapariga tão jovem, e julgo que por trás dessa seriedade se esconde antes estupidez do que sensatez.”
— Lady Rondeau, esposa do ministro inglês na corte russa
O início da amizade com Juliana von Mengden
Por volta da mesma época, a baronesa Juliana von Mengden, de dezassete anos, foi chamada da Livónia e nomeada dama de honra de Ana. Rapidamente se tornou a sua amiga íntima e confidente.
Juliana von Mengden, nascida em 1719, era um ano mais nova do que Ana. Segundo os testemunhos da época, a sua relação podia ir além de uma simples amizade. Passavam longas horas a sós — em trajes caseiros, vestidas com desleixo e de cabelo solto. Isto deu origem na corte a rumores sobre a sua proximidade “não convencional”.
“A princesa não tinha uma beleza deslumbrante, mas era uma loira bonita, bondosa e meiga, ao mesmo tempo sonolenta e preguiçosa; não gostava de nenhuma ocupação e passava horas ociosas com a sua dama de honra favorita, Juliana von Mengden, por quem nutria um sentimento de rara amizade.”
— o historiador russo Nikolai Ivanovitch Kostomarov

Um casamento sem amor e o nascimento do herdeiro
Com o tempo, António Ulrico ganhou experiência militar e conquistou gradualmente o favor da imperatriz Ana Ivanovna e do meio da corte. Para Ana Leopoldovna, os seus êxitos e ambições permaneciam indiferentes. “O príncipe não me agrada. Mantêm-me apenas para procriar”, dizia sem rodeios.
Apesar disso, o casamento realizou-se com grande pompa: cortejo solene, carruagens ornamentadas, três fontes de vinho, salvas de artilharia a partir da Fortaleza de Pedro e Paulo, grande baile e fogo de artifício. Mas o principal objetivo desta união era gerar um herdeiro para o trono.
“Todas estas receções foram organizadas para unir duas pessoas que, ao que me parece, se odeiam de todo o coração.”
— Lady Rondeau, esposa do ministro inglês na corte russa
A 12 de agosto de 1740, Ana deu à luz um filho, a quem chamaram Ivan — em honra do bisavô, irmão de Pedro, o Grande. A Rússia tinha um herdeiro.
A ascensão ao poder
Meio ano depois, a imperatriz Ana Ivanovna adoeceu e, pressentindo a morte, publicou um manifesto declarando o bebé Ivan herdeiro do trono russo. O regente, porém, não foi a mãe da criança, mas o favorito da imperatriz, o alemão Ernst Johann von Biron.
Biron manteve-se no poder apenas um mês. Ana Leopoldovna, com o apoio do marechal de campo Münnich e com a participação de Juliana von Mengden, organizou uma conspiração que terminou com a detenção de Biron e o seu exílio na Sibéria.
O pai de Ivan, António, quase não demonstrava interesse pelos assuntos do Estado. Assim, Ana Leopoldovna, que tinha então apenas 22 anos, assumiu as funções de regente e tornou-se a governante de facto da Rússia.
A “Ana II” que nunca se concretizou e a relação com Juliana von Mengden
Em agradecimento pelo apoio durante o golpe, Ana Leopoldovna recompensou generosamente Juliana von Mengden. Esta recebeu os mais belos trajes, uma propriedade na Livónia e empréstimos avultados.
“Estas meninas [damas de honra], que pouco tinham visto do mundo, não possuíam a sagacidade necessária para as intrigas palacianas, razão pela qual nenhuma das três se envolveu nelas. Mas Juliana, a favorita da governante, quis participar nos assuntos — ou melhor, preguiçosa por natureza, conseguiu transmitir esse vício à sua senhora.”
— o memorialista Christoph Manstein
No início do governo de Ana Leopoldovna, a população de São Petersburgo atingira 70 000 habitantes e a cidade crescia rapidamente. Em frente ao Almirantado ainda havia hortas, a avenida Névski não estava totalmente construída e os cidadãos podiam banhar-se livremente sem roupa no rio Fontanka.
“Não havia ser menos capaz de estar à frente da governação do que a boa Ana Leopoldovna… Sem se vestir, sem se pentear, com um lenço atado à cabeça, deveria apenas permanecer nos seus aposentos privados com a sua inseparável favorita, a dama de honra Mengden.”
— o historiador russo Serguei Mikhailovitch Soloviov
Segundo as fontes, Ana Leopoldovna não aspirava ao poder e, antes da sua nomeação como regente, quase não participava nos assuntos de Estado. O seu governo foi avaliado com reserva e frequentemente de forma crítica, tanto pelos contemporâneos como pelos investigadores posteriores: os monarcas europeus viam-na como uma governante fraca, e os historiadores russos concluíram mais tarde que ela não estava à altura do papel de chefe de Estado.
Ao mesmo tempo, no início da regência, Ana Leopoldovna tomou uma série de medidas para ordenar as finanças públicas. Dedicou-se com energia à preparação de relatórios sobre as receitas, despesas e dívidas do Tesouro, procurando inteirar-se dos pormenores da administração.
Com o tempo, porém, esse impulso inicial enfraqueceu. As medidas iniciadas com visível empenho foram travadas pelos procedimentos burocráticos e acabaram por dissolver-se na rotina administrativa quotidiana.

Vida privada e afastamento dos assuntos do Estado
Apesar das críticas generalizadas enquanto governante, Ana Leopoldovna distinguiu-se por uma clemência rara para a sua época. Isso é evidente na revisão dos processos de pessoas exiladas durante os governos de Ana Ivanovna e de Biron e na restituição dos direitos de muitas delas. Tal humanidade para com os “criminosos de Estado” parecia, na época, algo incomum.
Ana promulgou também decretos que visavam aliviar as dificuldades quotidianas dos seus súbditos. Em particular, revogou a proibição instituída por Pedro, o Grande, de construir edifícios de pedra fora de São Petersburgo e atenuou as restrições impostas a quem desejasse fazer votos monásticos.
“Os seus atos eram francos e sinceros, e nada lhe era mais insuportável do que a simulação e o constrangimento tão necessários na corte; por isso, pessoas habituadas, no reinado anterior, às lisonjas mais grosseiras, a consideravam injustamente altiva e supostamente desdenhosa de todos. Sob uma aparente frieza, era interiormente indulgente e sincera… […] vestia-se sempre com relutância quando, durante a sua regência, tinha de receber visitas e aparecer em público…”
— Münnich
Segundo o testemunho do enviado inglês Finch, os sentimentos de Ana por Juliana assemelhavam-se ao “amor mais ardente de um homem por uma mulher”.
“Não posso deixar de reconhecer nela consideráveis dotes naturais, uma certa perspicácia, extraordinária bondade e humanidade; mas é, sem dúvida, demasiado reservada por temperamento: as grandes assembleias fatigam-na, e passa a maior parte do tempo nos aposentos da sua favorita, Mengden, rodeada dos parentes desta dama de honra.”
— o embaixador inglês Finch
Com o tempo, Ana Leopoldovna foi-se afastando cada vez mais dos assuntos de Estado. Formalmente, continuava a cumprir as suas funções, mas o interesse pela governação do país ia diminuindo progressivamente.
Sentia-se cada vez mais atraída pelo recolhimento e pelo convívio com um círculo restrito de pessoas próximas. Juliana von Mengden continuava a ocupar um lugar importante nesse círculo: nos aposentos de Juliana, Ana recebia frequentemente amigos ao serão.
“A governante continua a sentir repugnância pelo marido; acontece com frequência que Juliana Mengden lhe recusa a entrada no quarto desta princesa; por vezes é até obrigado a abandonar o leito.”
— o diplomata francês, marquês de La Chétardie
O conde Moritz Lynar, que Ana mandara regressar da Saxónia, voltou a aproximar-se dela, juntamente com outras pessoas de confiança. Nesse círculo, ela passava as noites a jogar cartas e a conversar. É provável que Ana sentisse apego tanto por homens como por mulheres.
“A grã-duquesa pensava muito mais em arranjar um lugar para a sua favorita do que nos restantes assuntos do império.”
— o memorialista Christoph Manstein
Com Lynar, Ana já não procurava esconder os seus sentimentos e demonstrava-lhe abertamente a sua afeição.
“Tinha frequentemente encontros no terceiro jardim do palácio com o seu favorito, o conde Lynar, para onde se dirigia sempre acompanhada da dama de honra Juliana… E quando o príncipe de Brunsvique [António, marido de Ana] queria entrar no mesmo jardim, encontrava os portões fechados à chave e os guardas tinham ordens de não deixar passar ninguém… Como Lynar vivia junto ao portão do jardim, na casa de Rumiantsev, a princesa mandou construir nas proximidades uma casa de campo — o atual Palácio de Verão. No verão, mandava colocar o seu leito na varanda do Palácio de Inverno; e, embora se colocassem biombos para o ocultar, dos segundos andares das casas vizinhas do palácio era possível ver tudo.”
— Münnich
O camareiro Fiódor Apraksin censurou certa vez Ana Leopoldovna por “jantar a sós com a dama de honra von Mengden, quando seria mais decoroso fazê-lo com o seu marido, e que a referida dama de honra gozava de grande favor junto de Sua Alteza Imperial”. Em resposta, Ana insultou-o, chamando-lhe “canalha russo”.
Ao contrário da imperatriz Ana Ivanovna, que preferia divertimentos faustosos, Ana Leopoldovna não apreciava a caça, a equitação nem o tiro. Sentia-se mais atraída por ocupações tranquilas; em particular, criava aves com entusiasmo. Nos seus aposentos viviam um papagaio, um pombo egípcio, um estorninho domesticado e dois rouxinóis.
Em julho de 1741, Ana deu à luz uma filha, Catarina. No quarto das crianças estavam permanentemente uma ama-seca, uma ama-de-leite e a dama de honra favorita, Juliana von Mengden.

O golpe e a queda
O período de relativa calma foi interrompido a 28 de julho de 1741, quando a Suécia declarou guerra à Rússia, esperando recuperar os territórios perdidos sob Pedro, o Grande. Os combates tiveram início na Finlândia.
No mesmo mês, com o consentimento de Ana Leopoldovna, a sua favorita Juliana von Mengden ficou noiva do conde Moritz Lynar. Ana concedeu a Lynar a Ordem de Santo André, a mais alta distinção russa, após o que ele partiu para a Saxónia por motivos oficiais.
Nesse contexto, São Petersburgo ficou por algum tempo praticamente sem tropas capazes de proteger Ana e os seus apoiantes.
No outono de 1741, formou-se uma conspiração contra Ana Leopoldovna e o seu círculo. À frente estava Isabel Petrovna, filha de Pedro, o Grande. Já em dezembro de 1740, suspeitava que Ana não pretendia limitar-se ao papel de regente e aspirava a tornar-se imperatriz de pleno direito. Tratava o príncipe António com desprezo ostensivo, chamando-lhe “idiota” mesmo na presença de soldados do seu regimento.
A 24 de novembro deu-se o golpe de palácio, que terminou com a vitória completa e incruenta dos conspiradores. O exército e as autoridades civis não tiveram tempo de reagir: enquanto os cortesãos de Ana se divertiam num baile, Isabel já se encontrava nos quartéis da guarda, entre os seus apoiantes.
Foi apoiada por suboficiais que prestaram juramento à nova imperatriz. Em breve, um destacamento de granadeiros dirigiu-se ao palácio. Os conspiradores entraram nos aposentos sem resistência e prenderam toda a gente, incluindo o jovem imperador Ivan.
“Depois de acabar na guarita, Isabel dirigiu-se ao palácio, onde não encontrou resistência por parte dos sentinelas, à exceção de um suboficial, que imediatamente mandou prender. Ao entrar no quarto da governante, que dormia com a dama de honra Mengden, Isabel disse-lhe: ‘Irmãzinha, está na hora de se levantar!’ A governante, ao acordar, disse: ‘Como, é a senhora!’ Ao ver os granadeiros atrás de Isabel, Ana Leopoldovna percebeu o que se passava e começou a suplicar à czarévna que não fizesse mal nem aos seus filhos nem à menina Mengden, de quem não desejava separar-se.”
— o historiador russo Serguei Mikhailovitch Soloviov
O exílio e os interrogatórios
Após a detenção, iniciou-se um processo judicial. O marechal de campo Münnich foi condenado ao esquartejamento, e Juliana von Mengden à pena de morte. No último instante, Isabel comutou ambas as penas em exílio na Sibéria.
O tribunal declarou Ana Leopoldovna e o marido culpados de violação do juramento e de usurpação do poder que, segundo a lógica da acusação, pertencia à filha de Pedro, o Grande. Deste modo, Ana e a sua família ficaram por muito tempo marcadas na memória coletiva como “usurpadores”. A sua pena foi o exílio — inicialmente para a pátria alemã.
Antes da partida, foi permitido a Ana Leopoldovna dirigir à nova imperatriz um último pedido. Pediu apenas uma coisa: que lhe permitissem permanecer junto de Juliana von Mengden. Isabel atendeu o pedido.
O caminho dos exilados começou em Riga, que então fazia parte do Império Russo. Porém, em vez de serem enviados para a Alemanha, a família permaneceu durante quase um ano sob prisão no castelo de Riga, sem saber o que lhe reservava o futuro.
Iniciou-se uma correspondência entre Riga e São Petersburgo. Isabel Petrovna abriu uma investigação sobre o desaparecimento de joias da coroa, suspeitando de Ana Leopoldovna e do seu círculo. Mengden foi também acusada de tentar influenciar a sucessão ao trono. No entanto, o principal objeto da investigação continuou a ser o destino dos valores desaparecidos.
Juliana explicou em pormenor onde se encontravam, segundo ela, as joias e os objetos preciosos. Um adereço, caixas de rapé e outros objetos tinham sido, segundo afirmou, entregues a diversas pessoas por ordem de Ana Leopoldovna. Pessoalmente, recebera de presente apenas algumas peças de valor especial. Interrogada sobre o dinheiro, Mengden declarou que recebera de Ana somas avultadas, grande parte das quais transmitira ao noivo Lynar e a outras pessoas, tendo ainda feito donativos à Igreja.
Num dos interrogatórios seguintes, Juliana von Mengden — a quem a imperatriz Isabel chamava pejorativamente “Julka” — afirmou que Ana Leopoldovna pessoalmente partira algumas joias. As pedras retiradas das montagens eram guardadas no armário da princesa, mas o paradeiro dos cofres desse armário permaneceu desconhecido.
Enquanto os interrogatórios prosseguiam, Ana Leopoldovna e António Ulrico passaram um ano na cidadela de Riga, no edifício que hoje alberga a residência do presidente da Letónia. A tão esperada partida nunca se concretizou. Inicialmente, os cônjuges foram mantidos separados, mas em fevereiro de 1743 permitiram-lhes viver juntos, embora o regime de detenção continuasse rigoroso.
No início, Ana Leopoldovna e o marido mantinham a esperança de serem libertados e tentavam distrair-se. Ana balançava-se nos baloiços do pátio do castelo, enquanto o príncipe António Ulrico jogava às bilhas com as damas.
Os últimos anos
Mais tarde, a desconfiada Isabel ordenou a transferência da família para um local mais “seguro”. Primeiro, foram detidos na fortaleza de Ranenburg, a atual Tchaplíguin, no Oblast de Lipetsk. A 27 de julho de 1744, Isabel ordenou que a família de Ana Leopoldovna fosse enviada para o Mosteiro de Solovetski.
À dama de honra Juliana von Mengden, contudo, foi ordenado que permanecesse na fortaleza. Os criados de Ana compreendiam que a separação de Juliana seria para ela um golpe terrível e enviaram à capital um pedido para que a dama de honra pudesse acompanhá-los, mas não receberam resposta. Juliana não partiu. Ana nunca mais viu a sua fiel “Júlia”: Mengden permaneceu em Ranenburg.
Ao chegarem a Kholmogory, no atual Oblast de Arkhangelsk, os prisioneiros não puderam prosseguir viagem por causa do gelo no Dvina Setentrional. Em consequência, Isabel ordenou que ficassem ali, em condições de estrito sigilo.
Mais tarde, a imperatriz lembrou-se novamente das joias desaparecidas e ordenou aos guardas que interrogassem Ana sobre o destino dos diamantes. Na ordem ficou registada uma nota manuscrita de Isabel: “E se ela começar a negar que deu diamantes a quem quer que fosse, diz-lhe que serei obrigada a mandar investigar Juliana; e se tem pena dela, que não a deixe chegar a tal tormento.”
Desconhece-se como decorreu exatamente essa conversa. Provavelmente, Ana rejeitou as acusações, pois não houve perseguições posteriores, e Juliana von Mengden em Ranenburg não foi incomodada.
A morte de Ana e o destino de Juliana
O destino póstumo dos membros da família caída em desgraça fora determinado de antemão. Isabel publicara um decreto segundo o qual, em caso de morte de qualquer membro da família — em especial Ana Leopoldovna ou o príncipe Ivan — o corpo, após autópsia e conservação em álcool, deveria ser imediatamente enviado para a capital.
A Ana Leopoldovna restava pouco tempo de vida. Sabe-se muito pouco sobre os últimos meses da sua existência. A 17 (6) de março de 1746, foi comunicado que a princesa tinha sido acometida de febre, e no dia seguinte — que falecera. Morreu aos 28 anos.

Quando a notícia da morte de Ana Leopoldovna chegou a São Petersburgo, iniciaram-se os preparativos para receber o seu corpo. Ana foi sepultada na Igreja da Anunciação do Mosteiro de Alexandre Névski, junto à mãe.
Após a sua morte, a família teve um destino trágico. O seu filho, o antigo imperador, ficou para sempre em isolamento e foi morto pelos guardas em 1764. O príncipe António Ulrico passou o resto da vida em Kholmogory, ficou cego e morreu em 1774.
Juliana permaneceu no exílio em Ranenburg até ao final de 1762. Depois, por decreto da imperatriz Catarina II, foi-lhe permitido regressar à Livónia. Instalou-se na propriedade da mãe, raramente a abandonava e dedicou-se à gestão da propriedade.
Partilhava de boa vontade as suas memórias do passado e dos anos de cativeiro, mas sobre a corte de Ana Leopoldovna falava raramente e com discrição. Nos últimos anos de vida, sofreu ataques de febre e morreu em outubro de 1787.
Bibliografia e fontes
- Анисимов Е. В. Иван VI Антонович. [Evguéni V. Anissimov - Ivan VI Antonovitch]
- Корф М. А. Брауншвейгское семейство. [Modest A. Korf - A família de Brunsvique]
- Курукин И. В. Анна Леопольдовна. [Igor V. Kurúkin - Ana Leopoldovna]
- Манштейн Х., Миних Б., Миних Э. Перевороты и войны. [C. Manstein, B. Münnich, E. Münnich - Golpes e guerras]
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