A sexualidade de Pedro, o Grande: esposas, amantes, homens e a sua relação com Menchikov
O primeiro imperador da Rússia era bissexual? Ou amava apenas mulheres?
Índice

Pedro I entrou para a história como o reformador que mudou radicalmente a velha ordem. A sua vida pessoal foi igualmente complexa e contraditória.
Da época de Pedro sobreviveram muitas fontes: cartas, diários, memórias e apontamentos de estrangeiros na corte. Delas depreende-se que os rumores sobre possíveis relações do czar com homens eram amplamente difundidos. Contudo, muitos historiadores ou contornaram o tema, ou negaram-no categoricamente.
Neste artigo, são primeiro analisados os factos principais da biografia de Pedro e as suas relações com mulheres — esposas e amantes.
🏳️🌈 Na segunda metade, examinaremos todos os documentos e rumores sobre as possíveis relações de Pedro I com homens: memórias, diários, cartas e materiais de arquivo.
Nascimento, infância e formação da personalidade
Pedro nasceu a 9 de junho de 1672, em Moscovo. A sua mãe, Natália Kirílovna Naríchkina, era a segunda esposa do czar Aleixo Mikháilovitch; na altura do nascimento do filho tinha 21 anos. A infância de Pedro, como a de outras crianças czaristas, decorreu sob os cuidados de amas e criados.
Quando Pedro tinha quatro anos, o pai morreu. O czar adoeceu de súbito e faleceu. O trono coube ao filho de Aleixo Mikháilovitch do primeiro casamento — Fiódor. Estava gravemente doente: as pernas inchavam-lhe constantemente.
Fiódor reinou por pouco tempo e morreu em 1682. Seguiu-se uma luta pelo poder entre os Naríchkin, família materna de Pedro, e os Miloslávski, parentes da primeira esposa do czar. A questão era: quem seria czar — Ivan ou Pedro. Ivan, irmão mais velho de Pedro por parte de pai, também era de saúde frágil.
Em maio de 1682 eclodiu uma revolta em Moscovo. Os Miloslávski convenceram os streltsí — o corpo de mosqueteiros do czar, uma poderosa força político-militar — de que os Naríchkin tinham assassinado Ivan. Os streltsí invadiram o Kremlin e encontraram Ivan vivo. Mas já não conseguiram parar: exigiram sangue e mataram vários boiardos, entre eles pessoas próximas de Pedro. Pedro recordou este horror para toda a vida e mais tarde vingou-se.
Após a revolta, ambos os irmãos foram proclamados czares. A governação do país foi confiada à irmã mais velha, Sofia, como regente, até que pudessem governar sozinhos.
Pedro recebeu uma educação fraca. Os seus preceptores deram-lhe apenas os rudimentos da escrita, e durante toda a vida escreveu com erros. Em contrapartida, desde cedo fascinaram-no os ofícios. Aprendeu carpintaria, marcenaria e ferraria — algo quase impensável para um czar russo.
Mais do que tudo, atraíam-no o exército e o mar. Na aldeia de Preobrajénskoie organizava batalhas “de brincar”. Oficialmente eram consideradas jogo, mas na realidade usavam-se mosquetes e canhões verdadeiros, e tudo parecia bastante sério.
A construção naval na Rússia era então irregular. Pedro adquiriu os conhecimentos náuticos mais práticos junto dos estrangeiros, razão pela qual passava cada vez mais tempo no Bairro Alemão — o quarteirão moscovita onde viviam europeus. A designação era convencional: na Rússia de então, “alemães” significava frequentemente estrangeiros em geral, não apenas oriundos de terras germânicas.
Em 1694 morreu a mãe de Pedro. Ele quebrou a tradição e não compareceu ao funeral oficial. Viveu o luto em solidão e mais tarde chorou-a secretamente junto à sepultura. Este traço do seu carácter manifestou-se já então: o desprezo pelo ritual aliava-se nele a sentimentos profundos, mas ocultos.
Reinado: em resumo
Sem entrar em pormenores, as principais etapas do reinado de Pedro podem enumerar-se assim.
A “Grande Embaixada” de 1697–1698 — uma grande viagem de Pedro e da sua comitiva pela Europa. Proporcionou-lhe o contacto direto com a técnica, o exército, o sistema de governo e o quotidiano europeus.
Seguiram-se a criação do Império Russo, as reformas militares e a vitória na Grande Guerra do Norte (1700–1721) contra a Suécia. Esta vitória consolidou o acesso da Rússia ao Báltico. Depois veio o avanço para leste e a campanha do Cáspio, após a qual a Rússia se afirmou ainda mais como grande potência.
Pedro reconstruiu o país em quase todos os domínios. Criou um exército e uma marinha permanentes, reformou o sistema de governo e influenciou a educação e a cultura. Tal política exigiu decisões duras e deixou marcas no seu carácter. A pressão constante do poder e das guerras tornou-o cruel, desconfiado e intolerante à crítica.
Igualmente significativo era o modo como escolhia as pessoas. Pedro valorizava a capacidade, não a origem. A sua família materna fora parcialmente destruída durante a revolta; ignorava os parentes da esposa; os amigos de infância mais próximos não pertenciam à alta aristocracia. No seu reinado, plebeus, estrangeiros e pessoas de outra fé podiam ascender aos cargos mais altos, se ele os considerasse capazes e úteis.
Pedro I combinava em si o reformador e o déspota, o destruidor da velha ordem e o criador da nova.
Aparência e carácter de Pedro I
“O czar Pedro Aleksiéievitch era de estatura elevada, antes magro do que gordo; os cabelos eram espessos, curtos, de um castanho-escuro; os olhos, grandes, negros, com longas pestanas; a boca, de belo formato, embora o lábio inferior fosse um pouco disforme; a expressão, magnífica, inspirando respeito ao primeiro olhar.”
— Filippo Balatri, cantor italiano (1698)

“O czar é muito alto; o rosto é muito bonito; é muito esbelto. Mas, a par de todas as qualidades excecionais com que a natureza o dotou, seria de desejar que os seus gostos fossem menos grosseiros… Disse-nos que ele próprio trabalha na construção de navios, mostrou-nos as mãos e fez-nos sentir os calos. […] Quanto aos seus tiques [convulsões], eu imaginava-os piores do que os encontrei, e não está ao seu alcance controlar alguns deles. Nota-se também que não lhe ensinaram a comer com asseio, mas agradou-me a sua naturalidade e à-vontade — começou a comportar-se como se estivesse em casa.”
— a eleitora de Brandeburgo, Sofia Carlota de Hanôver, sobre o encontro com Pedro I

“De manhã Sua Majestade levanta-se muito cedo, e já o encontrei mais de uma vez, à hora mais matinal, no cais, a caminho do príncipe Menchikov, ou dos almirantes, ou do Almirantado e da cordoaria. Almoça por volta do meio-dia, onde quer que seja e com quem quer que seja, embora de preferência com ministros, generais ou enviados… Depois do almoço, descansando cerca de uma hora à maneira russa, o czar retoma o trabalho e só tarde na noite se recolhe. Não aprecia jogos de cartas, caça e coisas do género, e o seu único divertimento — pelo qual se distingue claramente de todos os outros monarcas — é navegar.”
— autor anónimo do opúsculo “Descrição de São Petersburgo e Kronstadt em 1710 e 1711”
Primeiro casamento: Eudóxia Lopukhina
Aos dezassete anos Pedro tinha de casar — assim decidiu a sua mãe, a czarina Natália Kirílovna. Segundo as conceções da época, o casamento significava a entrada na idade adulta e conferia mais autonomia ao jovem. Para Pedro era também uma forma de enfraquecer a posição da czarevna Sofia, que como regente governava de facto.
A noiva foi Eudóxia Lopukhina — de linhagem nobre e bela, mas criada na tradição moscovita antiga. Espiritualmente, tornou-se-lhe depressa estranha. No início talvez houvesse simpatia entre eles, mas cerca de um mês após o casamento Pedro partiu para os seus navios e ocupações. A submissão da esposa e o apego dela aos velhos costumes provocavam-lhe tédio e irritação.
Em 1690 nasceu-lhes o filho Aleixo, mas isso não fortaleceu a família. Ao regressar da Grande Embaixada, inspirado pela Europa, Pedro obrigou Eudóxia a entrar num convento. Assim, rompeu efetivamente a sua união.

Relação com a amante Anna Mons
No Bairro Alemão, Pedro I conheceu Anna Mons, filha de um comerciante de vinhos. Ela tornou-se, por longo tempo, a sua principal paixão. Anna era alegre, espirituosa, apreciava a dança e a conversa e diferia radicalmente de Eudóxia, criada nas velhas tradições moscovitas.
O czar visitava cada vez mais a casa dos Mons. Eudóxia tentou recuperar o marido e escreveu-lhe cartas comoventes.
“Saúde, minha luz, por muitos anos. Imploramos a vossa graça, soberano — vinde a nós, sem demora. E pela graça da minha mãe estou viva. A vossa mulherzinha Dunka faz uma vénia até ao chão.”
— Eudóxia Lopukhina, em carta a Pedro I
Mas essas cartas ficavam sem resposta. Pedro já não se prendia à família.
Anna Mons foi amante do czar durante mais de dez anos. Pelos textos, para ela a relação significava menos do que para Pedro. Com o tempo, Anna encontrou um novo admirador — o enviado prussiano Georg Johann von Keyserlingk. Ao saber disso, Pedro enfureceu-se e Anna foi colocada em prisão domiciliária.
Pedro encontrou-se com Keyserlingk. Segundo o próprio enviado, o czar declarou que “criara a donzela Mons para si, com a intenção sincera de casar com ela, mas, dado que foi por ele seduzida e corrompida, não quer ouvir nem saber nada dela nem dos seus parentes”.
Menchikov, o mais próximo colaborador de Pedro, acrescentou que Mons era “uma mulher vil e pública, com quem ele próprio se libertinara tanto como Keyserlingk”. Depois disso, os criados de Menchikov espancaram o diplomata e atiraram-no pelas escadas abaixo.
Apesar do escândalo, Keyserlingk conseguiu o que queria: em 1711 casou com Anna. Mas passados seis meses morreu. Anna tentou recomeçar a vida, mas em breve morreu também, de tísica — o nome de então para a tuberculose.
Não há dados sobre qualquer gravidez de Anna Mons por Pedro.

Segundo casamento: Catarina I
Em 1711, em plena guerra contra a Suécia, Pedro I anunciou que tinha uma nova esposa — Catarina.
Antes de Pedro, as ligações extraconjugais dos monarcas na Rússia eram toleradas. Mas um casamento oficial do czar com uma mulher fora do seu círculo era considerado quase impossível. O czar era visto não apenas como governante, mas como figura sagrada, rodeada de noções de ordem e correção. Assim, a união com uma antiga prisioneira era escandalosa. Pedro, porém, não se deixou deter.
Antes do batismo, Catarina chamava-se Marta. Nasceu na Livónia — numa região que hoje pertence em grande parte à Letónia e à Estónia. A mãe era amante de um nobre, mas Marta ficou cedo órfã e foi acolhida na casa de um pastor luterano.
Em 1702, Marta foi capturada pelos russos durante o cerco de Marienburgo, atual Alūksne, na Letónia. Primeiro ficou com um suboficial, depois com o marechal de campo Cheremétiev e, por fim, com Alexandre Menchikov. Em 1703, Pedro viu-a em casa de Menchikov e levou-a consigo. O facto de ela ter sido anteriormente concubina de Menchikov, aparentemente, não o incomodou.
Após a conversão à ortodoxia, Marta tornou-se Catarina. Deu a Pedro vários filhos e ocupou gradualmente um lugar especial na sua vida. Catarina não era apenas uma amante: sabia acalmar o czar nos acessos de fúria e ajudá-lo a suportar convulsões severas.
Em 1711, Pedro casou com ela discretamente e, em 1724, coroou-a oficialmente. Assim, uma antiga “criada alemã” tornou-se a futura imperatriz Catarina I e a primeira mulher à frente do Império Russo.
Ao contrário de Anna Mons, Catarina era fisicamente resistente e acompanhava Pedro quase constantemente — em campanhas, em lançamentos de navios e em revistas militares. Os contemporâneos recordavam que segurava sem esforço o pesado cetro imperial — um símbolo de poder tão maciço que os criados mal conseguiam sustentá-lo.
Sobreviveram 170 cartas de Pedro a Catarina. Escrevia-lhe com afeto; as cartas podiam começar com: “Katerínuchka, minha amiga”.
“Pelo amor de Deus, venha o mais depressa possível; e, se por qualquer razão não puder vir depressa, escreva, pois não é sem pesar que nem a ouço nem a vejo.”
— Pedro I, em carta a Catarina

A queda de Anna Mons não prejudicou a carreira do seu irmão. Willem Mons, igualmente bonito e encantador, fez carreira na corte e tornou-se a pessoa de maior confiança de Catarina I. Aproveitando a proximidade com a imperatriz, mediante subornos ajudava outros a obter acesso a ela. Isso afetava também as decisões de Pedro: quem controla o acesso à governante acaba inevitavelmente por influenciar pedidos, rumores e o clima geral à sua volta.
Este sistema poderia ter continuado, não fosse um episódio perigoso para a corte: Willem mantinha um romance secreto com Catarina.
O desfecho começou com uma denúncia. Em novembro de 1724, Pedro — já ciente das maquinações de Mons — organizou um jantar de família. À mesa estavam Catarina e o próprio Willem. A certo momento, o czar perguntou que horas eram. Catarina olhou para o relógio — uma prenda de Pedro — e respondeu:
— Nove.
Pedro pegou no relógio em silêncio, adiantou os ponteiros e disse friamente:
— Engana-se. Meia-noite. É hora de todos irem dormir.
Os convidados retiraram-se. Minutos depois, Mons foi preso. Nos interrogatórios confessou tudo, mesmo sem tortura. Mas formalmente a acusação mencionava apenas suborno: o nome de Catarina não era referido. A sentença foi uma só — pena de morte.
No dia da execução, Catarina manteve-se serena, mas o embaixador francês Campredon informou Paris:
“Embora a soberana esconda tanto quanto pode o seu sofrimento, ele está-lhe escrito no rosto.”
— o embaixador de França, Campredon
De seguida, Pedro agiu com crueldade demonstrativa: ordenou que a cabeça do executado fosse conservada em álcool e exposta nos aposentos de Catarina. Depois disso, as relações entre eles arrefeceram visivelmente. Pedro passava tempo com a amante Maria Cantemir, de uma nobre família moldava, e quase não falava com a esposa.
Só em janeiro de 1725, um mês antes da morte de Pedro, os cônjuges se reconciliaram.
Mais tarde surgiu a lenda de que, agonizante, Pedro tentara escrever o nome do herdeiro, mas a mão enfraqueceu e só conseguiu traçar: “Deem tudo…” — sem terminar. A seguir, a política tornou-se decisiva. Menchikov desempenhou um papel determinante: no momento crítico apoiou Catarina, e foi graças a isso que ela subiu ao trono.
Outras amantes
Pedro I era famoso pelas suas numerosas aventuras. O seu médico pessoal, o doutor Areskin, comentou um dia com ironia que o czar parecia albergar em si toda uma “legião de demónios da luxúria” — uma atração irreprimível por aventuras amorosas.
Durante a Grande Embaixada, Pedro evitou geralmente os divertimentos. A exceção foi Londres, onde teve um breve caso com a atriz Letícia Cross. O romance acabou depressa. Antes de partir, Pedro deu-lhe uma “prenda” — 500 libras esterlinas. Cross disse que esperava uma quantia maior, mas Pedro limitou-se a sorrir de soslaio: na opinião dele, já pagara com demasiada generosidade.
“… o soberano gostava por vezes de conversar com uma beldade, mas não mais de meia hora. É verdade: Sua Majestade amava o sexo feminino; contudo, a nenhuma mulher se apegava com paixão e apagava depressa a chama do amor, dizendo: ‘A um soldado não convém afogar-se no luxo; esquecer o serviço por causa de uma mulher é imperdoável. Ser prisioneiro de uma amante é pior do que ser prisioneiro de guerra: do inimigo, a liberdade pode chegar depressa, mas os grilhões de uma mulher duram muito.’ Tomava a que lhe aparecesse e agradasse — mas sempre com o consentimento dela e sem coerção.”
— Andrei Nártov
Na Europa da época, os romances dos monarcas não surpreendiam ninguém. As favoritas — amantes fixas na corte — eram parte normal da vida cortesã. Um exemplo eloquente é o rei polaco Augusto II, o Forte, a quem se atribuíam 354 filhos ilegítimos. Para a sociedade, isso não era vergonha, mas sinal da força do governante: jovem, enérgico, capaz de conquistar mulheres.
Na Rússia a atitude era no geral semelhante. Os romances de Pedro não causavam grande escândalo nem entre a nobreza, nem por parte da Igreja. Além disso, o seu círculo imitava frequentemente esse estilo. O príncipe Ivan Trubetskói, por exemplo, caindo em cativeiro sueco, apresentou-se como viúvo e arranjou uma amante.
O próprio Pedro, porém, segundo os textos, por vezes envergonhava-se dos seus romances e não gostava de ser alvo de troça. Em 1716, o ministro saxão Flemming descreveu um jantar de Pedro I com o rei da Dinamarca. Depois de muita bebida, o monarca dinamarquês decidiu provocá-lo:
— Irmão, ouvi dizer que também tendes uma amante!
Pedro não achou graça e respondeu secamente:
— Irmão, as minhas favoritas não me custam muito, enquanto as vossas mulheres públicas vos custam milhares de táleres, que poderíeis empregar com muito mais proveito.
Menchikov reuniu na corte um grupo de raparigas. Entre elas estava Varvara, irmã da sua esposa. Queria aproximá-la do czar para reforçar ainda mais a sua posição junto de Pedro. Varvara, segundo escrevem, não era tida como beldade, mas era inteligente.
O estrangeiro Villebois descreveu uma cena à mesa. Segundo ele, Pedro disse-lhe: “não creio que alguém se encante contigo, pobre Vária, és demasiado feia; mas não te deixarei morrer sem provares o amor”. Em seguida, segundo esta fonte, o czar “ali mesmo, à vista de todos, atirou-a para o sofá e cumpriu a sua promessa”.
Catarina I encarava com calma as paixões do marido. Por vezes, segundo estes textos, ela própria lhe escolhia amantes, considerando essas ligações diversões insignificantes que não ameaçavam o casamento. A única mulher que a inquietou de verdade foi a princesa Maria Cantemir.
Maria provinha de uma família ilustre. O seu pai, o príncipe moldavo-valáquio Dmítri Cantemir, depois da derrota perante os turcos em 1711, mudou-se para São Petersburgo e entrou no círculo de Pedro. Em 1722 soube-se que Maria esperava um filho do czar. Se tivesse nascido um rapaz, o equilíbrio na corte podia ter mudado: Maria possuía linhagem principesca e, aos olhos da nobreza, podia parecer uma czarina mais adequada do que Catarina. Mas Maria perdeu a criança.
Castigo por falar dos romances do czar com mulheres
O povo comum condenava com frequência a devassidão do czar. Porém, na época de Pedro, palavras imprudentes sobre o soberano podiam terminar tragicamente. Nos arquivos do Prikaz de Preobrajénski — instituição encarregada de investigações políticas, interrogatórios e “casos de sedição” — conservaram-se materiais sobre tais conversas.
Em 1701, o ex-sacerdote Nikífor Plekhánovski denunciou o camponês Daníla Kuzmín. Segundo a denúncia, Kuzmín difundia rumores de que Pedro forçara a esposa a tomar o véu, vivia “na devassidão” com alemãs e até as levava consigo em viagens. Mais grave era outra acusação: Kuzmín contava que em Vorónezh uma rapariga morrera após ter sido violada pelo czar. O caso arrastou-se; os interrogatórios foram conduzidos sob tortura. No fim, Kuzmín morreu na masmorra — na prisão de instrução.
Quase ao mesmo tempo, o habitante de Kursk Avtomón Puchéchnikov acusou o parente Mikhaíl Bukréiev de “falas indecentes”. Bukréiev contara a um mercador uma história: durante uma epidemia alojara-se em sua casa o coronel Baltazar, que supostamente confessara que o czar seduzira a sua esposa, dando-lhe como recompensa dois barris de azeite e dois barris de mel, fazendo-o depois coronel.
No interrogatório, Bukréiev foi mais cauteloso. Admitiu ter mencionado as relações de Pedro com alemãs, mas negou querer acusar o czar de devassidão. O azeite e o mel em casa de Baltazar ele tinha efetivamente visto, mas este explicara que era uma recompensa pelo serviço. O tribunal condenou Bukréiev ao chicote, à marcação a ferro e ao exílio na Sibéria. Não sobreviveu para cumprir a pena.
Há ainda outro episódio. Um certo Dmítri Issáiev admitiu ter discutido com um amigo a vida privada do czar. Afirmou que “até o Sereníssimo Príncipe [Menchikov] foi agraciado por não ser outra coisa senão que o grande soberano vive na devassidão com a sua esposa e as irmãs dela” e que “esteve nos regimentos, e morreu um cão sueco do soberano, e ele, soberano, e o Sereníssimo Príncipe com a esposa foram ver esse cão. E nessa altura a esposa do Sereníssimo Príncipe ia com o soberano e o Sereníssimo Príncipe de camisa”. Como terminou esta investigação, desconhece-se.

O lado homossexual de Pedro
Pedro I, a julgar pelas fontes sobre a sua vida privada, pode ter tido relações não só com mulheres, mas também com homens.
É importante desde logo assinalar o limite da fiabilidade. Provas diretas não existem: não se conservaram confissões do próprio Pedro nem documentos em que ele falasse disso abertamente.
Existem, contudo, numerosos indícios indiretos: rumores, relatos em segunda mão, anotações de estrangeiros, memórias, diários e processos criminais. Estes materiais são dispersos e frequentemente transmitidos por terceiros. Isso aplica-se especialmente às fontes estrangeiras, em que a vida da corte russa era não raro descrita de fora, com conjeturas e apreciações politicamente coloridas.
As relações de Pedro com mulheres estão detalhadamente registadas: conhecem-se as suas esposas, amantes, romances e cartas. Por isso surge com frequência o argumento: se Pedro claramente se interessava por mulheres, então relações com homens não poderia ter tido. Mas para o início do século XVIII, essa lógica é demasiado simplista.
Naquela época a sexualidade era entendida de forma diferente da atual. Não existia a divisão, hoje familiar, entre “homo” e “hétero” como identidades estáveis. As pessoas podiam estabelecer relações diversas. Conhecem-se muitos exemplos de homens que tinham família e filhos e, ao mesmo tempo, mantinham ligações com pessoas do mesmo sexo. Isso dependia de hábitos pessoais, circunstâncias, normas do meio e do grau de temor de ser exposto.

A atitude da sociedade russa do início do século XVIII face à homossexualidade
Ao verificar os rumores sobre a vida privada de Pedro, importa considerar não apenas os relatos em si, mas também o pano de fundo cultural da época: o que era tido como admissível, o que era “pecado”, o que era meramente indecoroso e o que era visto como ameaça ao Estado.
O “pecado de Sodoma” na Rússia pré-petrina não era coisa inaudita. Os viajantes estrangeiros escreviam sobre ele e os sacerdotes ortodoxos advertiam os fiéis. Sob os primeiros Románov o fenómeno também não desapareceu, e a juventude de Pedro coincidiu precisamente com o fim dessa época.
Já escrevemos sobre isto:
Por isso, se Pedro tivesse de facto relações com homens, dificilmente isso teria provocado uma “explosão social”. Esse comportamento seria provavelmente encarado como indecência, pecado e violação das boas maneiras, especialmente vindo de um soberano. Tratar-se-ia de algo que se procurava não trazer a público, e não de algo que, nas conceções da época, destruísse a sociedade.
Contexto das fontes sobre Pedro: memórias, rumores e anedotas
As reformas de Pedro dividiram profundamente a sociedade. Uns viam nele um herói e construtor de uma Rússia nova; outros, um destruidor dos costumes e inimigo da “velha fé”. Os opositores das mudanças espalhavam rumores, por vezes manifestamente absurdos. Entre eles figuravam também relatos sobre relações homossexuais do czar.
A par dos rumores existiam também “anedotas”. No século XVIII, esta palavra significava frequentemente não uma piada no sentido moderno, mas uma curta narrativa sobre um incidente. Tal texto situava-se entre a memória e a vinheta literária: podia ter na sua base um episódio real, mas quase sempre já passara por recontagem, embelezamento e invenção.
Por isso é importante compreender em que autores assentam estas histórias e como habitualmente se avalia a fiabilidade dos seus testemunhos.
Andrei Nártov. Chamavam-lhe “o torneiro de Pedro”. Atribui-se-lhe a coletânea “Contos e anedotas sobre Pedro, o Grande”. Há, porém, a versão de que este texto foi escrito não por Nártov, mas pelo seu filho — 61 anos após a morte de Pedro. Historiadores, entre eles P. A. Krótov, consideram estes textos ficção literária.
Jacob von Stählin. Historiador alemão que chegou à Rússia em 1735, já após a morte de Pedro. Em 1785 publicou em alemão “Anedotas autênticas sobre Pedro, o Grande”. Durante mais de 40 anos recolheu histórias sobre o czar e depois reelaborou-as.
Kazimierz Waliszewski. Historiador polaco que muito escreveu sobre Pedro. Os seus trabalhos são frequentemente criticados: os especialistas não os consideram base fiável, pois neles se encontram conclusões arriscadas e pormenores duvidosos.
Nikita Villebois (François Guillaume de Villebois). Aventureiro francês ao serviço da Rússia. Atribuem-se-lhe as “Memórias de Villebois, contemporâneo de Pedro, o Grande”. Contudo, os investigadores consideram este texto uma falsificação. Em Paris conserva-se um manuscrito com a anotação: “Anedotas sobre a Rússia; Villebois não é o autor.”
Friedrich Bergholz. Nobre alemão que viveu na Rússia no tempo de Pedro. Mantinha um diário detalhado e registava os acontecimentos com cuidado e regularidade. As suas notas são geralmente tidas como fidedignas; é uma das fontes “fortes” para a época.
Boris Kurákin. Companheiro de Pedro e primeiro embaixador permanente da Rússia no estrangeiro. Escreveu a “História do czar Pedro Aleksiéievitch”. É o testemunho de alguém do círculo do poder, que conhecia o sistema por dentro. Costuma ser considerado mais fiável do que compilações tardias de rumores.
A fronteira entre verdade e invenção permanece aqui incerta. Por isso é útil ter presente um esquema simples: os textos de Nártov são provavelmente uma construção literária tardia; Stählin recolheu e reelaborou rumores; Waliszewski não é fiável como base sólida; Villebois é possivelmente uma falsificação; a Bergholz e Kurákin confia-se geralmente mais.
Pedro I e o sargento Moissei Bujénínov
Na juventude, Pedro, já casado, vivia cada vez mais fora do palácio, entre pessoas de condição mais modesta. Rodeavam-no jovens que não pertenciam à boiardocracia nem à aristocracia. Entre eles destacava-se particularmente Moissei Bujénínov, filho de um servente do Convento de Novodiévitchi.
O príncipe Boris Kurákin descreve este período assim:
“Muitos rapazes, gente simples, entraram nas graças de Sua Majestade, e sobretudo Bujénínov e muitos outros que à volta de Sua Majestade estavam dia e noite. […] E para o dito Bujénínov construíram uma casa junto ao quartel do regimento Preobrajénski, e nessa casa Sua Majestade começou a pernoitar; e com isso começou a primeira separação da czarina [esposa] Eudóxia. Só de dia ia à mãe ao palácio, e ora jantava no palácio, ora naquele pátio de Bujénínov.”
— príncipe Boris Kurákin sobre Pedro I
Daqui nasce a hipótese de que a primeira fissura séria no casamento com Eudóxia surgiu antes da história com Anna Mons. Talvez a primeira separação estivesse ligada a Moissei Bujénínov, em cuja casa o jovem czar preferia pernoitar, evitando o casamento que se lhe tornara um fardo. Neste contexto, o posterior aparecimento de Menchikov como pessoa especialmente próxima torna-se mais compreensível.
Pedro I e Pável Iaguzhínski
Após a aproximação a Menchikov, Pedro ganhou outro protegido — Pável Iaguzhínski, oriundo da Lituânia, filho de um professor de órgão.
O seu aparecimento junto do czar podia fazer parte das manobras da corte. Considera-se que o chanceler Fiódor Golovín recomendou Iaguzhínski para enfraquecer a influência de Menchikov. O chanceler era um dos principais dirigentes da política externa e da administração, e alguém desse nível podia de facto “introduzir” as pessoas certas junto do czar.
A carreira de Iaguzhínski começou do zero. Em Moscovo limpava botas e fazia outros trabalhos. O contemporâneo estrangeiro Friedrich Christian Weber escreveu sobre essas ocupações de tal modo que “o sentido do decoro lhe proibia alongar-se sobre elas” — insinuando um trabalho que considerava indecente ou humilhante de descrever. Seguiu-se uma ascensão vertiginosa: Iaguzhínski tornou-se favorito de Pedro e em poucos anos obteve o posto de procurador-geral do Senado.
Uma ascensão tão meteórica quase sempre gera rumores. Os maledicentes diziam que o sucesso de Iaguzhínski se explicava não só pelas suas capacidades e lealdade ao czar, mas também por uma relação demasiado íntima com Pedro.
Excentricidades homoeróticas de Pedro I
As fontes conservaram uma série de episódios que podem ser classificados como excentricidades homoeróticas de Pedro I.
Villebois escreveu que Pedro “era sujeito, por assim dizer, a acessos de fúria amorosa, durante os quais não distinguia os sexos”.
Nártov afirmava que Pedro não conseguia dormir sozinho. Se a esposa não estava por perto, chamava para a cama o primeiro ordenança que aparecesse. Ordenança (em russo, denshchik) era um soldado-criado ao serviço de um oficial ou do czar. Segundo Nártov, Pedro sofria de crises noturnas e adormecia frequentemente abraçado ao ordenança Prokófi Murzín, segurando-lhe os ombros.
“O soberano tinha de facto por vezes, de noite, tais convulsões no corpo que deitava consigo o ordenança Murzín, agarrando-se aos ombros dele adormecia — o que eu próprio também vi.”
— Andrei Nártov
Mais tarde Murzín fez carreira e chegou ao posto de coronel.
Stählin refere outro episódio. Em descanso fora da cidade, Pedro, segundo ele, ordenava ao ordenança que se deitasse no chão e punha-lhe a cabeça sobre a barriga. E estabelecia uma condição: o criado devia estar com fome. Se lhe roncava o estômago, Pedro irritava-se e podia bater-lhe.
Há mais relatos: Pedro, escrevem, mostrava abertamente carinho pelos seus próximos — abraçava-os, acariciava-lhes a cabeça, cobria-os de beijos. O ordenança Afanássi Tatíschev podia receber dele “cem beijos” num só dia.
Bergholz anotou no seu diário que o soberano tinha um novo favorito — o jovem Vassíli Pospélov. Pospélov cantava no coro do czar e a sua voz agradou a Pedro. O próprio Pedro também gostava de cantar e podia juntar-se ao coro ao lado dos cantores. Segundo Bergholz, Pospélov cativou-o de tal modo que o czar quase não se separava dele, cobria-o de mimos e fazia os mais altos dignitários esperar até terminar de conversar com o favorito.
“É espantoso como grandes senhores podem ter apego por pessoas de toda a condição. Este homem é de baixa extração, criado como todos os outros cantores, de aparência muito pouco atraente e, ao que tudo indica, simples, até estúpido — e, apesar disso, as pessoas mais eminentes do Estado cortejam-no.”
— Friedrich Wilhelm Bergholz sobre Vassíli Pospélov e Pedro I

Favoritos e favoritismo
Favoritismo — um sistema em que os próximos do monarca obtêm uma posição e privilégios especiais. A raiz da palavra é latina: favor — “benevolência”. Por vezes os favoritos eram também parceiros amorosos, mas não necessariamente: o favorito é sobretudo alguém em quem o soberano confia e a quem distingue.
O favoritismo não era apenas expressão de simpatia pessoal, mas um mecanismo de poder. Os favoritos recebiam postos, distinções, dinheiro, terras e acesso à tomada de decisões. Podiam ser amigos, companheiros de armas, administradores e, por vezes, parceiros íntimos.
Na corte de Pedro destacavam-se três: Romodanóvski, Cheremétiev e Menchikov. Os dois primeiros gozavam de um privilégio excecional — podiam entrar nos aposentos do czar a qualquer hora, mesmo de noite. Pedro tratava-os com respeito ostensivo e acompanhava-os pessoalmente até à porta.
No século XVIII o favoritismo na Rússia atingiu o auge. Um dos favoritos mais notáveis foi Alexandre Danílovich Menchikov, o mais próximo companheiro de Pedro.
Alexandre Danílovich Menchikov, “meu coração”
A primeira menção a Menchikov nas fontes remonta a 1698. O diplomata austríaco Johann Korb chamou-lhe “o favorito do czar, Aleksáchka, da mais baixa condição”. A sua origem permanece controversa até hoje: segundo uma versão era de facto plebeu; segundo outra, descendia da nobre família polaca dos Menchikov.
Menchikov nasceu em 1673, um ano depois de Pedro I. Os contemporâneos descreviam-no como um homem alto e forte, de feições marcantes. Segundo a lenda, na juventude vendia pastelaria até ser notado por Franz Lefort — um dos mais próximos do jovem czar, um “europeu” na corte e organizador de muitas iniciativas petrinas.
No final da década de 1680, Menchikov chegou à corte e tornou-se ordenança de Pedro. O ordenança do czar não era um simples criado, mas alguém que está constantemente ao seu lado: ajuda no quotidiano, acompanha, protege, cumpre incumbências pessoais e participa nos banquetes. Neste último papel, Menchikov destacava-se.
“[Menchikov] deve toda a sua fortuna à graça do czar, que o ama, sendo ele objeto de inveja e ódio da nobreza russa, sem nada para lhes opor senão a proteção do seu soberano.”
— A. de Lavi, cônsul francês para assuntos marítimos, sobre Alexandre Menchikov
Durante a Grande Guerra do Norte, Menchikov participou no assalto a Nöteborg e no cerco de Nyenschantz — fortalezas no Neva e arredores, pontos-chave na luta com a Suécia pelo acesso ao Báltico.
Pelos seus méritos militares recebeu o posto de governador da província de São Petersburgo e dirigiu de facto a região em torno da nova capital. Menchikov supervisionou a construção de São Petersburgo, Kronstadt, estaleiros e fábricas. Foi-lhe também confiada a educação do filho de Pedro.
“De modo geral, ele [Pedro] apenas finge ser partidário da legalidade, e quando se comete alguma injustiça, o príncipe [Menchikov] só tem de atrair sobre si o ódio dos prejudicados… E do czar dizem que ele próprio é bom, mas que a culpa recai sobre o príncipe em muitas questões em que ele é frequentemente inocente…”
— o enviado dinamarquês Just Juel sobre Pedro I e Menchikov
Após a batalha de Poltava, a influência de Menchikov cresceu abruptamente. Segundo as fontes, foram as suas ações que impediram o rei sueco Carlos XII de atacar de surpresa o acampamento russo — e isso foi uma das chaves da vitória. Depois de Poltava, Menchikov já não era apenas um homem junto do czar: chefiou o Colégio Militar, o principal órgão de gestão do exército, entrou no Senado e ocupou toda uma série de altos cargos.
“Menchikov foi concebido na iniquidade, em todos os pecados o deu à luz a sua mãe, e na vilania acabará a vida.”
— Pedro I sobre Alexandre Menchikov
Menchikov não precisava apenas do poder como instrumento. Acumulava avidamente títulos, dinheiro e honrarias. Chamavam-lhe o maior delapidador da Rússia — um homem que roubava do tesouro do Estado em enorme escala.
Vestia-se com luxo ostensivo: os seus caftãs brilhavam de diamantes, como os de monarcas europeus. Também não se acanhava de pedir marcas simbólicas de reconhecimento. Suplicou, por exemplo, a Isaac Newton o título de membro honorário da Academia Britânica, embora, segundo os contemporâneos, mal soubesse escrever.
Na década de 1720, em influência só ficava atrás de Pedro. Onde o czar não estava, as decisões passavam frequentemente por Menchikov — ou eram tomadas por ele.
“Em tudo o que diz respeito a honras e lucro, revela-se a criatura mais insaciável que alguma vez nasceu.”
— o enviado dinamarquês Just Juel sobre Alexandre Menchikov

A 8 de fevereiro de 1725, Pedro, o Grande, morreu sem deixar testamento. Menchikov agiu depressa e ajudou Catarina I a ocupar o trono. Mas Catarina adoecia frequentemente e, entre os nobres, crescia o descontentamento com o “favorito” que concentrara demasiado poder. A oposição reuniu-se em torno do jovem Pedro II e esperou o momento oportuno.
Na primavera de 1727 Catarina morreu. Menchikov conseguiu a transmissão do trono a Pedro II, mas com uma condição: o novo imperador devia casar com a sua filha. Assim ficou decidido. Menchikov instalou o jovem czar no seu palácio e começou a construir-lhe outro. Era um gesto demonstrativo: o soberano vive em minha casa, logo eu mando.
Mas Pedro II adorava a caça e as saídas ao campo. Aí, a sua entourage afastou rapidamente o rapaz de Menchikov. No fim, o czar virou as costas ao antigo mentor e rompeu o noivado.
“Eu próprio tenho muitos inimigos. Para me perder, do que não seria capaz a imperatriz Eudóxia! De que não me acusam! Quantas vezes fui vítima de ingratos a quem proporcionei a felicidade! A um passo estou do abismo… O filho dele [de Pedro] despreza-me, os streltsí desprezam-me. O patriarca considera-me o único culpado da sua queda; o clero teme-me e amaldiçoa-me; os boiardos odeiam-me. Talvez eu seja culpado. Se perdemos uma batalha, se ao czar faltam tropas ou dinheiro, todos dizem que fui eu que o levei a usar os soldados noutro lado e que gastei o dinheiro comigo. Atrevem-se até a acusar-me da construção de São Petersburgo. Estou rodeado de invejosos e de inimigos, e para mim próprio será espantoso se escapar ao exílio.”
— Alexandre Danílovich Menchikov
O Supremo Conselho Secreto retirou a Menchikov postos, títulos, riqueza e poder. Foi exilado para a Sibéria.
No caminho morreu a sua esposa, Daria. No Natal de 1728, no dia do seu décimo oitavo aniversário, morreu a sua filha Maria — aquela mesma que devia tornar-se imperatriz.
Em novembro de 1729 morreu o próprio Menchikov. Foi sepultado em terra de permafrost, mas depois a margem do rio desabou e a cheia primaveril levou os seus restos. Mais tarde, a imperatriz Ana Ivánovna trouxe os filhos dele de volta do exílio.

Menchikov e Pedro I
Menchikov possuía qualidades que Pedro valorizava especialmente num “novo” homem no poder. Era inteligente, rápido, enérgico, corajoso, fisicamente forte, duro com os subordinados e ao mesmo tempo sabia lidar com as pessoas. Não era rancoroso e podia beber “sem fim”. Havia poucos assim, e Pedro perdoava-lhe muito.
Pedro sentia de facto por Menchikov um afeto sincero. Juntos guerrearam e construíram, juntos suportaram os duros dias das campanhas. Menchikov estava constantemente ao seu lado: no campo de batalha, à mesa do czar e nos momentos em que se decidia o destino do Estado.
Em 1703 esta proximidade recebeu confirmação simbólica: no mesmo dia, ambos receberam a mais alta condecoração da Rússia — a Ordem de Santo André, o Primeiro Chamado.
Foi precisamente esta proximidade que se tornou terreno fértil para as conversas de que a sua relação podia ir além da amizade e do serviço comuns.
A correspondência entre Menchikov e Pedro I
Pedro dirigia-se a Menchikov com grande calor. Chamava-lhe Aleksáchka — uma alcunha carinhosa, embora pudesse dar alcunhas assim a outros.
Mais significativo é outro facto: era precisamente a Menchikov que escrevia “meu coração” e “meu irmão de coração e camarada”. Nas cartas aparecem também expressões alemãs: “mein Herzenskind!” (“criança do meu coração”), “mein bester Freund” (“meu melhor amigo”), “mein Bruder” (“meu irmão”).
Menchikov também respondia com liberdade, sem a habitual adulação cortesã. Para comparação: o marechal de campo Cheremétiev assinava com humildade — “vosso servo mais submisso”. Aleksáchka, porém, escrevia simplesmente, de camarada para camarada: “Meu senhor capitão, saúde!” — e punha apenas o seu nome. “Capitão” aqui não era mera fórmula: Pedro gostava de “desempenhar papéis militares” e exigia que se dirigissem a ele pela patente, mesmo sendo czar.
Eis algumas cartas de Pedro a Menchikov:
“Mein Herz.” [Meu coração.]
Nós, conforme a vossa palavra, aqui, graças a Deus, divertimo-nos bastante, sem deixar um único lugar. A cidade, com a bênção do metropolita de Kíev, batizámos juntamente com os baluartes e as portas, de que envio um desenho junto a esta carta. E na bênção bebemos: na porta 1, vinho; na 2, espumante; na 3, vinho do Reno; na 4, cerveja; na 5, hidromel; na porta, vinho do Reno — de que mais amplamente informará o portador desta carta. Tudo está bem; só que dá, dá, dá, ó Deus, que vos veja em alegria. Tu mesmo sabes.
A última porta, a de Vorónezh, concluímos com grande alegria, lembrando o que há de vir."
— Pedro I, em carta a Alexandre Menchikov, 3 de fevereiro de 1703
“Mein liebster Kamerad.” [Meu camarada mais querido.]
Peço muito que de quinze a vinte dos melhores artilheiros sejam enviados com este mensageiro; a respeito do que, repetindo, peço. Da minha estada aqui não quero escrever-vos: dá, Deus, que vos veja em alegria."
— Pedro I, em carta a Alexandre Menchikov, 7 de julho de 1704
“Já há muito teria estado convosco, mas pelos meus pecados e desventuras aqui fiquei deste modo: no próprio dia da minha partida daqui apanhou-me a febre.
[…] tanto pela doença, como mais ainda pelo pesar de que o tempo se perde, e também pela separação de vós. Por isso vos entrego à guarda de Deus e fico.
Dá, dá, dá, Senhor Deus, que vos veja em alegria. Por favor, saudai da minha parte os nossos amigos e conhecidos.”
— Pedro I, em carta a Alexandre Menchikov, 8 de maio de 1705
“Antes escrevi-vos da minha aflição e que vos voltaria a escrever; do que agora vos informo que ela, pela bondade de Deus, abranda, e pelos sinais parece encaminhar-se para o bem; contudo, Deus sabe quando passará de vez. Nesta doença não é menor a angústia da separação de vós, que muitas vezes suportei dentro de mim; mas agora já não posso mais: vinde ter comigo o mais depressa possível, para que eu fique mais alegre — vós mesmos podeis ajuizar porquê; também trazei o médico inglês e vinde cá com poucos.”
— Pedro I, em carta a Alexandre Menchikov, 14 de maio de 1705
Castigo por falar das supostas relações do czar com homens
Menchikov, um homem de origem humilde que subiu rapidamente ao cume do poder, tornou-se inevitavelmente alvo de rumores. Quanto mais próximo estava do czar, mais prontamente o seu sucesso era explicado não pelo serviço e pelas capacidades, mas pela proximidade pessoal com o soberano.
Tais conversas circulavam também no meio popular. Isso é visível nos processos judiciais: no Arquivo do Estado Russo de Atos Antigos (RGADA) conservam-se documentos em que os acusados atribuíam ao soberano inclinações “contra a natureza”.
1. Processo “sobre o mercador Gavrila Románov” (RGADA. F. 6. Op. 1. D. 10).
Em 1698, o mercador Gavrila Románov foi acusado de “injuriar” o czar, ou seja, de pronunciar palavras ofensivas sobre o soberano. A testemunha era Fadeika Zolotariov. Declarou que durante a Maslenitsa, quando Románov o visitava, este dissera:
— A graça do Soberano para com Aleksáchka Menchikov é tal que ninguém mais a tem.
Zolotariov tentou interpretar esta graça “de forma decente” — como ajuda de Deus e fruto das preces de Menchikov. Mas, segundo ele, Románov respondeu de outro modo e de forma muito mais perigosa:
— Deus não teve nada com isso; o diabo é que o [Pedro] juntou com ele; vive com ele na devassidão e mantém-no na sua cama como uma mulher.
No interrogatório Románov negou tudo. Afirmou que Zolotariov o caluniara por causa de uma dívida antiga: o credor supostamente tentava recuperar o dinheiro com persuasão e com ameaças.
Tentando salvar-se, Románov decidiu subornar o próprio Menchikov e enviou-lhe o neto e um criado com um barrilete de dinheiro. Mas na casa de Menchikov surpreendeu-os o próprio czar. Os mensageiros foram presos.
Num novo interrogatório, Románov declarou estar gravemente doente, já se ter confessado e querer morrer em casa, não na prisão. Em breve morreu de facto e a investigação foi encerrada.
Mesmo com este desfecho, o episódio é significativo. Mostra que as conversas sobre a proximidade invulgar de Pedro e Menchikov já existiam e eram suficientemente sérias para se tornarem objeto de investigação política.
2. Processo “com base em denúncias [calúnias] de presos na cadeia de Vólogda” (RGADA. F. 371. Op. 2, parte 4. Art. 734).
Em 1703, em Vólogda, dois detidos acusaram o soldado exilado Ivan Rokótov de ter proferido palavras perigosas sobre o czar — na prática, um crime político. O cerne da denúncia: anos antes, na prisão, Rokótov teria repetido as palavras de outro exilado, Nikita Selivérstov. Este, segundo os denunciantes, servira sob o capitão Mikhaílo Feoktístov.
Segundo as suas palavras, Rokótov repetira que Selivérstov dissera do czar:
— Que espécie de czar é este? Não é czar, é impostor, e vive com Aleksáchka Menchikov na devassidão; por isso lhe dá os seus favores.
Selivérstov, ao ouvir a acusação, rejeitou-a. Mais: declarou que a fonte original dessas palavras era o próprio denunciante. Este supostamente, durante a campanha de Azov, vira tudo com os próprios olhos:
— …estava de guarda junto à tenda do Soberano, e o Soberano, andando só de camisa, beija-o, a Alexandre [Menchikov], e, depois de o beijar, deita-se a dormir com ele.
Depois o caso passou às torturas. Os investigadores torturaram Selivérstov duas vezes, mas ele manteve a sua versão: a denúncia era vingança por antigos conflitos na prisão. Como terminou o caso, destes materiais não consta.
![Aleksei Venetsiánov, “Pedro, o Grande. Fundação de São Petersburgo” [com Menchikov]](/posts/courses/russian-queer-history/18-peter/18-peter-14.jpg)
Introdução da punição por “sodomia” no exército sob Pedro I
À primeira vista parece paradoxal: sob Pedro circulam rumores sobre a sua intimidade com homens, e sob ele aparecem as primeiras punições estatais por “sodomia”. Mas a lógica era prática.
Pedro construía um exército segundo o modelo europeu e transpunha para a Rússia as normas que vira na Europa. Em vários países europeus já existiam leis contra relações entre pessoas do mesmo sexo. Pela mesma lógica, normas similares deviam surgir na Rússia. Inicialmente aplicavam-se apenas aos militares, pois o exército era o principal campo das reformas petrinas.
A execução desta diretiva foi confiada a Menchikov. Em 1706 publicou o “Artigo Breve” — um código militar sucinto de regras e punições. Aí se fixou pela primeira vez uma punição para “adultérios contra a natureza”. Por sodomia masculina ou corrupção de menores, a pena prevista era a fogueira, mas não se chegou a execuções reais. Cerca de dez anos depois a punição foi atenuada: no Regulamento Militar de 1716, a pena de morte foi substituída por castigos corporais.
Mais sobre este tema — num artigo separado:
Causas da morte de Pedro: sífilis ou outra coisa?
Nos últimos anos de vida, a saúde de Pedro suscitou muita discussão. Em 1721, o enviado polaco Johann Lefort escreveu:
“A saúde do Czar piora de dia para dia; a falta de ar atormenta-o muito. Supõem que tem um abcesso interno que de tempos a tempos se abre, e ouvi dizer que a sua última dor de garganta era devida à matéria que fluía do abcesso; além disso, não tem o menor cuidado consigo.”
— Johann Lefort, enviado polaco, sobre a saúde de Pedro I (1721)
Os cortesãos notaram também uma coincidência que alimentou rumores adicionais: um dos pajens adoeceu ao mesmo tempo que o czar. Embora o pajem não fosse considerado especialmente bonito, mesmo isso serviu de pretexto para suposições sobre uma possível ligação.
A hipótese da sífilis surgiu já no século XVIII. Contudo, os médicos da época distinguiam mal sífilis e gonorreia: ambas as doenças podiam ser descritas com as mesmas palavras e sintomas semelhantes. O relatório oficial da autópsia do czar não sobreviveu.
Em 1970, especialistas do Instituto Central de Dermatovenereologia analisaram os materiais disponíveis e concluíram que a causa da morte foi urossepse — uma infeção grave ligada às vias urinárias: forma-se uma obstrução, a inflamação agrava-se, surge insuficiência renal aguda. Segundo as descrições, Pedro sofria de dores intensas e perturbações graves na micção; a doença progrediu rapidamente e revelou-se fatal.
Pedro compreendia bem o perigo das doenças venéreas. Nos hospitais criados no seu tempo surgiram enfermarias especiais para soldados infetados. No seu reinado, a Rússia abriu 10 grandes hospitais e mais de 500 enfermarias de campanha.

Conclusão
A imagem de Pedro I é não raro complementada com novas versões sobre a sua vida privada. Mas conclusões seguras não podem construir-se sobre suposições. A investigação histórica exige cautela e verificação de factos: o que importa não são hipóteses atraentes por si mesmas, mas a capacidade de avaliar sobriamente as fontes e apoiar-se apenas em dados confirmados.
A força da abordagem histórica reside em ensinar a duvidar e a não apresentar suposições como verdades.
Muito provavelmente, toda a verdade sobre a vida privada de Pedro I permanecerá desconhecida. À sua volta há muitos rumores e alusões, mas provas diretas da sua possível bissexualidade não existem. Os indícios indiretos por vezes citados são dispersos e admitem diferentes explicações, pelo que não podem ser interpretados de forma inequívoca.
Ignorar totalmente tais alusões e afirmar que não há nada a discutir seria igualmente estranho. Isso conduz a dois extremos: ou aceitamos tudo sem reservas, ou negamos tudo por completo. Ambas as posições são frágeis.
A conclusão pode formular-se assim: Pedro I pode ter sido bissexual, e pode não ter sido. Com os dados disponíveis, o mais correto é dizer que a versão é possível, mas não provada. Por isso, não se deve proclamá-la como facto estabelecido, mas também não proibir a própria pergunta, enquanto ela for discutida com cuidado e com apoio nas fontes.
Para terminar, três opiniões sobre Pedro: uma negativa, uma neutral e uma elogiosa:
“Uma besta raivosa e bêbeda, apodrecida pela sífilis, durante um quarto de século arruína pessoas, executa-as, queima-as, enterra vivos na terra, encarcera a mulher, devassa-se, comete sodomia, embriaga-se, ele próprio, divertindo-se, corta cabeças, blasfema, passeia com uma paródia de cruz feita de cachimbos em forma de órgãos genitais e com paródias dos Evangelhos — uma caixa de vodca para “louvar Cristo”, isto é, para escarnecer da fé; coroa a sua rameira e o seu amante, devasta a Rússia e executa o filho e morre de sífilis — e não só não lhe lembram as atrocidades, como até hoje não cessam os elogios às virtudes deste monstro, e não há fim de monumentos de todo o género em sua honra.”
— Lev Nikoláievitch Tolstói sobre Pedro I
“Um bárbaro que civilizou a sua Rússia; ele, que construiu cidades mas nelas não quis viver; ele, que castigava a esposa com o chicote e concedeu às mulheres ampla liberdade — a sua vida foi grande, rica e útil no plano público, mas no privado foi aquilo que calhou ser.”
— August Strindberg sobre Pedro I
“A quem compararei o Grande Soberano? Vejo na antiguidade e nos tempos modernos Governantes chamados grandes. E em verdade, diante de outros são grandes. Mas diante de Pedro, pequenos. … A quem assemelharei o nosso Herói? Muitas vezes pensei como é Aquele que com gesto todo-poderoso governa céu, terra e mar: sopra o Seu espírito — e as águas fluem; toca as montanhas — e elas se elevam em fumo.”
“Ele era um deus, o teu deus era, Rússia!”
— Mikhaíl Lomonóssov sobre Pedro I

Referências e fontes
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