Um castigo antigo por adultério — introduzir peixe e rabanete no ânus (rafanidose)

O que se sabe e como aparece na literatura — de Aristófanes a Juvenal.

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Um castigo antigo por adultério — introduzir peixe e rabanete no ânus (rafanidose)

A rafanidose (ῥαφανίδωσις) nas Atenas clássicas dos séculos V e IV a.C. era a introdução forçada da raiz de um rabanete no ânus.

Em Atenas, tratava-se de uma forma de humilhação pública ligada à punição de moicheía, ou seja, do adultério entendido como violação da fidelidade conjugal. Tal pena encaixava-se nas noções antigas de masculinidade: o homem a ela submetido perdia simbolicamente os traços do «verdadeiro» homem livre e parte dos direitos associados a esse estatuto.

Motivos semelhantes — com hortaliça ou peixe — aparecem também entre os romanos e em Bizâncio.

Papéis sexuais na Grécia antiga e a linguagem da humilhação

Em Atenas e Roma a conduta sexual era compreendida de modo diferente do atual. Mais importantes que o sexo biológico do parceiro eram a hierarquia social, a idade e a repartição entre papéis ativo e passivo.

Em Atenas, uma forma reconhecida de relação homoerótica era a pederastia: a ligação de um cidadão adulto — o erastês — com um jovem, o erômenos. A diferença de idade e de estatuto era tida por normal; tais relações eram toleradas até a maturidade física do jovem. Ao tornar-se adulto, o jovem passava a chefe de um novo lar com uma esposa e cidadão de pleno direito.

O papel passivo para um homem livre adulto era visto como transgressão da norma; a passividade voluntária era interpretada como submissão e podia acarretar graves consequências, até a atimia — a perda total dos direitos cívicos, inclusive o de falar nos tribunais e exercer cargos públicos.

Isso também se refletia na língua. No grego antigo havia a palavra εὐρύπρωκτος (euryprôktos, literalmente «de ânus largo»). Designava um homem a quem se julgava ter perdido a dignidade devida.

Adultério como agressão à casa

Na Grécia antiga o adultério era entendido como agressão à casa e à autoridade do seu chefe masculino. Proibidos estavam não só os vínculos com uma mulher casada, mas também com uma filha solteira, irmã ou mãe de um cidadão sob sua tutela.

A sedução era julgada mais severamente que o estupro: no estupro a mulher era vista como inimiga do agressor, já no adultério como «corrompida» e infiel ao marido. Para a pólis grega isso também tinha sentido político: dúvidas sobre a paternidade minavam a instituição da cidadania, em que o estatuto se transmitia por descendência.

A pesquisadora Danielle S. Allen, em The World of Prometheus, lembra que os corpos dos cidadãos atenienses estavam protegidos contra tortura e castigos corporais, ao contrário dos escravos, cujos depoimentos muitas vezes eram obtidos sob tortura. Mas o adúltero flagrado tornava-se «corporalmente vulnerável»: o marido traído tinha direito de matá-lo no local e, se lhe poupasse a vida, podia torturá-lo e humilhá-lo. Foi aí que a rafanidose podia entrar.

A comparação com outras poleis destaca a particularidade de Atenas. Segundo as leis de Gortina em Creta, o adultério era punido com multas. Em Locros Epizefirios, as leis arcaicas de Zaleuco prescreviam cegar o adúltero. Noutras cidades havia também exposição pública por vários dias.

O que exatamente se introduzia: rabanete e peixe

A imagem moderna de rabanete pode induzir a erro aqui. Os rabanetes antigos (Raphanus) podiam produzir raízes longas, grossas e densas — até cerca de vinte e cinco centímetros —, mais próximas em forma e dureza de uma cenoura grande ou de variedades brancas alongadas como o tipo britânico «Icicle» do que de um rabanete de mesa pequeno e tenro.

Junto ao rabanete, as fontes mencionam a tainha (mugil). Tem cabeça grande, cauda que afina e nadadeira dorsal com raios rígidos e afiados voltados para trás. Os raios são os finos elementos de suporte no interior da nadadeira – como varetas ou espinhos que lhe dão forma. Introduzir o peixe pela cabeça é mais fácil do que retirá-lo; no movimento de volta essas saliências podiam causar ferimentos.

Mosaico romano antigo com tainha no Instituto de Arte de Chicago
Mosaico romano antigo com tainha no Instituto de Arte de Chicago

Textos antigos e bizantinos descrevem a rafanidose não como pena isolada, mas como parte de um conjunto mais amplo de práticas punitivas.

Menciona-se também o paratillmos (παρατίλμος) — arrancar os pelos púbicos e do escroto com cinza quente (τέφρα) espalhada sobre a pele.

Para um cidadão ateniense adulto, os pelos púbicos eram sinal de maturidade e estatuto, marca da passagem do jovem subordinado a chefe de casa. A depilação da zona íntima associava-se ao corpo feminino. A remoção forçada dos pelos tirava sinais externos da idade adulta e «rebaixava» simbolicamente o homem. Em ginásios e banhos, onde os homens ficavam nus, a ausência de pelos púbicos num adulto podia lembrar por muito tempo a desonra sofrida.

A rafanidose na literatura

A menção antiga mais conhecida está em Aristófanes. Em As Nuvens, no debate entre o logos «justo» e o «injusto», o logos «justo» adverte um jovem sobre as consequências da infidelidade conjugal — inclusive o rabanete, o arrancar pelos e a cinza quente:

«E se lhe enfiarem um rabanete no rabo porque confiou em ti, e depois lhe arrancarem os pelos com cinza ardente? Que argumento poderá apresentar para não passar por homem de ânus largo?»

— Aristófanes, As Nuvens, 1083–1084

No léxico enciclopédico Suda — dicionário de consulta em grego bizantino do século X — regista-se o verbo rhaphanidóô (ῥαφανιδόω) com o mesmo relato de castigo: os adúlteros eram presos, sujeitos à rafanidose, polvilhados com cinza quente e depilados:

«[A rafanidose] era o modo como castigavam os adúlteros quando os apanhavam. Agarravam-nos, enfiavam-lhes um rabanete nos ânus, depois polvilhavam-nos com cinza quente, arrancavam-lhes os pelos e sujeitavam-nos a tormentos bastante fortes.»

Suda, verbete ῥαφανιδόω

O filólogo bizantino João Tzetzes, nas escólias do século XII sobre As Nuvens, escreve que adúlteros ricos podiam comprar a remissão, enquanto os pobres eram levados ao meio da ágora — a praça pública central da pólis —, onde lhes arrancavam com cinza quente os pelos do escroto e lhes introduziam rabanetes longos no reto.

Investigadores atuais admitem que o contraste entre ricos e pobres pode refletir as observações de Tzetzes em Constantinopla da sua época; a descrição em si, porém, harmoniza com a tradição grega antiga — conhecida pelas leis de Solon — de resgate em dinheiro pela vida do adúltero: o desfecho dependia dos meios.

«Os adúlteros, se fossem ricos e fossem apanhados, podiam livrar-se a pagar; mas dos pobres vingavam-se com verdadeira crueldade. Levavam-nos publicamente ao meio da ágora, arrancavam-lhes os pelos dos testículos esfregando cinza quente da brasa, enfiavam-lhes rabanetes longos fundo no intestino recto e castigavam-nos de muitas outras maneiras.»

— João Tzetzes, escólias a As Nuvens

No escritor romano Luciano de Samósata, no século II d.C., em A morte de Peregrino (capítulo 9), menciona-se um filósofo apanhado em adultério na Arménia. Depois da desforra foge do telhado «com um rabanete entalado no ânus». Este grotesco do quotidiano sugere que o público ainda conhecia o castigo séculos depois de Aristófanes:

«Por isso Proteu recebeu uma boa série de pancadas, mas acabou por escapar ao perigo saltando do telhado e ficando com um rabanete atrás.»

— Luciano de Samósata, A morte de Peregrino, capítulo 9

Que o motivo grego era conhecido em Roma mostra-o, entre outras provas, o poema 15 do poeta romano Catulo. O poeta exige de Aurélio que não se aproxime do jovem Juventius, favorito de Catulo. O clímax é uma ameaça «ao estilo grego»:

Ah, como terei pena de ti e do teu cruel destino!
Quando, com os pés atados, pela porta aberta
Rabanete e tainha atravessarem-te

— Catulo, Carmen 15

Na literatura romana a imagem desloca-se em sentido: a ameaça de rafanidose ou equivalente já não é necessariamente castigo por adultério, mas elemento da rivalidade em torno de um jovem — objeto do desejo de dois homens.

O satírico romano Juvenal, autor de dezasseis Sátiras sobre os costumes romanos, na Sátira 10 (314–317), ao enumerar perigos que ameaçam homens belos, também menciona a tainha:

Um mata à espada, outro açoita até sangrar:
A alguns adúlteros enfiam-lhes uma tainha por detrás.

No período republicano o marido na família romana tinha amplos poderes na justiça doméstica. Sob Otávio Augusto o Estado tentou submeter esta esfera a controlo. A Lex Iulia de adulteriis coercendis tornou o adultério crime público. As penas habituais eram relegação para uma ilha e confisco de bens. Nem rabanete nem tainha figuram na lei.

Os historiadores divergem quanto ao grau em que a rafanidose foi prática ateniense real e não tópico literário.

O historiador David Cohen apoiou-se no argumento do silêncio: nos discursos judiciais conservados sobre adultério não há menções de rabanete, tainha nem cinza. Daí concluiu que as cenas de Aristófanes podiam ser invenção cómica que depois se cristalizou em imagem fixa.

O investigador Christopher Carey opôs-se numa nota de 1993, invocando a diferença de género: os oradores antigos observavam a euphēmía — norma de contenção verbal e de evitar léxico grosseiro em público —, enquanto a comédia baseava-se na concretude corporal. Na sua opinião, a ameaça do rabanete só funcionaria em palco se o público reconhecesse nela uma vingança extrajudicial marginal mas real.

Danielle Allen propõe também uma explicação para o silêncio dos oradores: se o adúltero era punido depressa, sem processo completo, tais episódios não entravam no corpus de discursos «elevados» de figuras como Lisias ou Demóstenes.

Bibliografia e fontes
  • Allen, D. S. The World of Prometheus: The Politics of Punishing in Democratic Athens. 2002.
  • Aristófanes. As Nuvens (Nephelai). Encenada em 423 a.C.; versos citados 1083–1084.
  • Carey, C. «Return of the radish or just when you thought it safe to go back into the kitchen.» Liverpool Classical Monthly, vol. 18, n.º 4, 1993.
  • Catulo, G. V. Carmen 15. Século I a.C.
  • Cohen, D. «A note on Aristophanes and the punishment of adultery in Athenian law.» Zeitschrift der Savigny-Stiftung für Rechtsgeschichte: Romanistische Abteilung, vol. 102, 1985.
  • Inscriptiones Creticae IV 72 (código de Gortina). Século V a.C.
  • Juvenal, D. J. Sátira 10, versos 314–317. Final do século I–início do século II d.C.
  • Luciano de Samósata. A morte de Peregrino, capítulo 9. Século II d.C.
  • Suda On Line. Verbete ῥαφανιδόω. Século X.
  • Tzetzes, J. Comentário a As Nuvens de Aristófanes (escólias). Século XII.
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