Um enredo homoerótico na literatura do antigo Egito: o faraó Pepi II Neferkara e o general Sasenet

E seus encontros secretos à noite.

Índice
Um enredo homoerótico na literatura do antigo Egito: o faraó Pepi II Neferkara e o general Sasenet

A literatura do antigo Egito raramente abordava a vida privada dos faraós. Pepi II é, nesse aspecto, uma exceção. Merece especial atenção o homoerótico «Conto do rei Neferkara e do general Sasenet»: para a sua época, enredos desse tipo raramente eram registrados por escrito.

Antes de tudo, é importante esclarecer quem é o protagonista.

Quem foi Pepi II

O faraó Pepi II Neferkara, também conhecido como Pepi, governou o Egito durante a VI dinastia do Império Antigo. Seu nome de trono era Neferkara — «Bela é a alma do deus Rá».

Subiu ao trono na década de 2180 a.C., vários séculos após a construção das pirâmides de Quéops. No momento da sua ascensão, tinha cerca de seis anos; nos primeiros anos, sua mãe provavelmente desempenhou um papel decisivo.

Na política externa, Pepi II seguiu, em geral, o rumo de seus predecessores. Os egípcios mantinham presença na Península do Sinai, onde extraíam recursos valiosos, e desenvolviam o comércio com a Núbia, ao sul.

Sob seu reinado, o Império Antigo enfraqueceu notavelmente. O poder real passou gradualmente para os governantes locais: os nomarcas se fortaleceram, entraram em conflito entre si, e a administração central perdeu o controle sobre as regiões. Pouco depois da morte do faraó, o Egito se fragmentou e teve início o Primeiro Período Intermediário.

A duração do reinado de Pepi II permanece em debate. O sacerdote Maneton, no século 3 a.C., escreveu que o faraó reinou por 94 anos — o que seria um reinado recorde. No entanto, apenas 62 anos estão atestados de forma confiável.

Restam poucos vestígios materiais de Pepi II. São conhecidas três estátuas: no Museu do Brooklyn, ele é representado no colo da mãe; no Museu do Cairo, como uma criança nua; no Metropolitan Museum, conservou-se apenas a cabeça. Seu complexo funerário incluía uma pirâmide, hoje em ruínas, e um templo, mas ambos eram de escala mais modesta que os monumentos de seus antecessores.

É justamente Pepi II quem se torna a figura central do «Conto do rei Neferkara e do general Sasenet», também conhecido como «O peticionário de Mênfis». O tema central deste texto é a relação homossexual entre ambos.

O enredo do conto: episódios-chave

O relato começa com a menção do faraó Neferkara — governante do Alto e do Baixo Egito, filho do deus Rá, descrito como «verdadeiro de voz». A fonte o caracteriza como um rei benevolente.

Antes do enredo principal, há um episódio envolvendo um certo «peticionário de Mênfis». Ele tentou se dirigir ao tribunal, mas os músicos da corte abafaram sua voz. Nesta cena estão presentes tanto o faraó como o general Sasenet, o que sugere que o peticionário foi deliberadamente impedido de falar.

É possível que seu discurso contivesse um protesto contra a relação do soberano, que já se tornara objeto de rumores. Nesse caso, o episódio pode ser entendido como um reflexo da reação social e como uma tentativa de conferir ao relato uma dimensão moral. Ao final da cena, o peticionário, sem conseguir conter as lágrimas, deixou Mênfis.

Em seguida, a narrativa concentra-se no faraó e em Sasenet. Na primeira aparição do general, o texto observa que ele «não tinha esposa» (jw-nn-wn-st-hmt m […]). A frase pode ser reconstituída como «não havia esposa [com ele]» (m[-=f]) ou «não havia esposa [em sua casa]» (m-[pr=f]). Para um egípcio, tal situação era incomum: sem esposa e sem herdeiro, ninguém poderia manter seu culto funerário.

O elevado status de Sasenet e a ausência de cônjuge podem indicar que seu retrato está ligado a uma atração pelo próprio sexo. Ao mesmo tempo, permanece incerto o que é primário — o celibato ou as preferências sexuais.

Sobre o estado civil do próprio Neferkara, o texto silencia, embora se saiba que ele teve várias esposas.

Então, entra em cena um novo personagem — Cheti, filho de Henet. Trata-se de um homem do povo, que recebe a rara oportunidade de ver o faraó:

«Então ele, Cheti, avistou: Sua Majestade, o rei do Alto e do Baixo Egito Nefer-ka-Rá, que saíra sozinho para um passeio, sem ninguém junto a ele. Cheti recuou diante do rei, sem se deixar ver por ele. Cheti, filho de Henet, parou e pensou: “Se é assim, então os rumores de que ele sai à noite são verdade.” Então Cheti, filho de Henet, seguiu este deus [o faraó], sem permitir que seu coração o acusasse, para observar cada uma de suas (isto é, do rei) ações.

Então ele [o faraó] chegou à casa do general Sasenet. Lançou um tijolo, batendo com o pé. Então desceram-lhe uma escada e ele subiu. Enquanto isso, Cheti, filho de Henet, esperou até que Sua Majestade saísse. Depois de Sua Majestade ter feito o que desejava fazer com ele (isto é, com o general), partiu para o seu palácio, com Cheti atrás de si. Somente quando Sua Majestade chegou à Grande Casa [o palácio], que viva, tenha saúde e seja próspero, é que Cheti voltou para casa.»

— O conto de Cheti, filho de Henet (Império Médio): o episódio do encontro noturno do faraó com Sasenet

Merece atenção especial a palavra «desejo» (mrwt) empregada no texto. Ela provavelmente indica a natureza da relação entre o rei e Sasenet. Neste contexto, o termo adquire um sentido claramente sexual, e o papel ativo é atribuído ao faraó. O ato sexual em si é descrito de forma velada, sem expressões explícitas — o que distingue este texto de várias outras obras da mesma época.

A fórmula «fazer com alguém o que se deseja» tinha na língua egípcia antiga um sentido sexual inequívoco. Expressões semelhantes aparecem, por exemplo, em textos que descrevem a união de deuses e rainhas no «Ciclo do nascimento» da XVIII dinastia. É possível que esta passagem parodie obras anteriores que não chegaram até nós, ou que faça alusão a uniões amorosas rituais, tradicionalmente descritas com contenção.

A seguir, o relato prossegue com o tema das visitas noturnas repetidas:

«Quanto ao passeio de Sua Majestade à casa do general Sasenet, cabe notar que haviam passado quatro horas da noite. Mais quatro horas ele passou na casa do general Sasenet. E quando entrou na Grande Casa, restavam quatro horas até o amanhecer. A partir de então, Cheti, filho de Henet, seguiu-o todas as noites, sem permitir que seu coração o acusasse. E somente depois de Sua Majestade subir à Grande Casa é que Cheti voltava para casa…»

— O conto de Cheti, filho de Henet (Império Médio), descrição das visitas noturnas repetidas

Na concepção dos antigos egípcios, a noite dividia-se em 12 horas. Cheti, naturalmente, não dispunha de instrumentos para medir o tempo com precisão, mas podia orientar-se pelas estrelas.

Os encontros secretos do soberano eram aparentemente percebidos como algo que ultrapassava os limites do permitido. Indicam-no tanto o caráter clandestino das visitas quanto os rumores sobre as saídas noturnas do faraó. A julgar pelo texto, tais encontros eram regulares, e o interesse por eles foi tão grande que um dos cortesãos decidiu seguir o rei.

Como muitas outras obras egípcias, o «Conto do rei Neferkara e do general Sasenet» não chegou completo até nós: o seu final perdeu-se.

Cabeça de Pepi II
Cabeça de Pepi II

Como os egiptólogos explicam este relato

O tradutor e historiador Posener vinculou o longo reinado de Neferkara ao declínio político e supôs que o conto tivesse um caráter satírico. Segundo essa leitura, o texto ridiculariza os costumes do Império Antigo às vésperas do seu colapso. No entanto, essa interpretação permanece uma hipótese.

Mesmo que o manuscrito efetivamente condene a relação do rei, disso não se conclui que os egípcios em geral considerassem a homossexualidade reprovável. Antes, o problema poderia residir no próprio fato de o faraó — figura sagrada — manter uma relação com um simples mortal. O status do rei era considerado tão excepcional que à maioria dos súditos provavelmente era vedado até mesmo tocá-lo.

Posener notou também que em diferentes épocas a homossexualidade foi frequentemente interpretada como sinal de decadência. No entanto, os textos antigos que descrevem o caos no país geralmente não relacionam esse tipo de ligação com a degradação social. No próprio conto, o tom é relativamente leve, mas contém um indício de escândalo — sobretudo porque o faraó em pessoa está envolvido.

Embora o texto deixe transparecer certa desaprovação em relação às relações homossexuais, Neferkara não é criticado pela escolha do parceiro, mas pela fraqueza como governante. Em linhas gerais, a sua imagem corresponde ao tipo do «mau rei» conhecido da tradição literária egípcia.

Alguns egiptólogos veem aqui um motivo de «corrupção régia». Ao mesmo tempo, o pesquisador Greenberg sublinha que o autor evita julgamentos diretos e severos. Ainda assim, o empenho do faraó em ocultar a relação aponta para uma atitude ambígua perante tal comportamento: a sua atração era aparentemente tão forte que ele procurava oportunidades para encontros secretos — até ser desmascarado.

O historiador neerlandês Jacobus van Dijk chamou a atenção para o facto de que a arte e a literatura egípcias estão saturadas de símbolos e alusões, compreensíveis sobretudo pela elite letrada. Segundo ele, o conto de Neferkara e Sasenet contém precisamente esse tipo de referência mitológica.

Van Dijk dedicou atenção especial à figura do amante do faraó. Na sua opinião, a escolha de um comandante militar poderia não ter sido casual. Esse estatuto implicava não apenas proximidade com o rei, mas também simbolizava a humilhação ritual dos inimigos. Nessa leitura, a cena adquire um sentido paródico e ridiculariza as representações habituais de poder e submissão.

O texto pode conter ainda outra camada paródica. A noite divide-se em três partes de quatro horas. De acordo com a tradição mitológica, a união mística de Rá e Osíris durava exatamente o mesmo tempo. No mito, Rá atravessava o mundo subterrâneo durante a noite, e Osíris transmitia-lhe a força necessária para renascer ao amanhecer. A sua união misteriosa durava precisamente quatro horas — o mesmo tempo que, segundo o conto, o faraó passava com o general.

Motivos abertamente sexuais estão ausentes deste mito. Contudo, textos antigos afirmam que os deuses «abraçavam-se mutuamente» e que Rá, ao tornar-se um com Osíris, era chamado «Hórus no abraço de seu pai». Pela manhã, o deus sol renascia, emergindo desses abraços. O nascimento do jovem Hórus como filho de Osíris também admite uma interpretação como um «vínculo de natureza especial», embora não no sentido convencional.

Este mito, a que os egípcios chamavam «o grande mistério», expressava um dos aspetos centrais da sua religião. No conto dos encontros noturnos de Neferkara com o general, ele torna-se, em essência, objeto de escárnio. Tal como o deus sol, o faraó ergue-se ao amanhecer no seu palácio, chamado «o horizonte onde habita Rá». O próprio Neferkara surge como uma encarnação do deus-pai.

O subtexto sexual da cena parece ser deliberadamente sublinhado. Posener comparou-o com textos da XVIII dinastia em que uma fórmula quase idêntica descreve a união de Ámon com uma rainha e o consequente nascimento de um rei divino: «…depois de Sua Majestade ter feito com ela tudo o que desejou.»

Na perspetiva de van Dijk, a dimensão satírica desta história é bastante clara. O comportamento de Neferkara é condenado como contrário ao ideal de maat — a ordem cósmica e a justiça — tanto mais por se tratar de um rei. Ao mesmo tempo, o conto parece ter sido concebido também para entreter.

Como exatamente a «História de Neferkara» era recebida no antigo Egito é difícil de determinar. Contudo, os ouvintes letrados provavelmente apreendiam o seu duplo sentido: para uns poderia ser divertida, para outros — chocante ou mesmo blasfema. Em última análise, o autor ousou parodiar um dos mitos mais importantes da religião egípcia.

De onde se conhece este relato: fontes e datação

O egiptólogo francês Georges Posener introduziu no circuito científico este monumento literário do antigo Egito — o «Conto do rei Neferkara e do general Sasenet».

O texto sobrevive em três cópias fragmentárias, datadas do período entre 1295 e 656 a.C., ou seja, do final do Império Novo e das épocas subsequentes. Os investigadores consideram, no entanto, que o próprio conto foi composto muito antes. Posener, com base na língua, no estilo e nas referências a figuras históricas, datou-o do final do Império Médio — muito antes da XIX dinastia.

Chegaram até nós três fontes: – uma tabuinha de madeira da XVIII ou XIX dinastia, conservada no Instituto para o Estudo das Culturas Antigas da Universidade de Chicago; – um óstraco da XX dinastia, encontrado em Deir el-Medina — uma aldeia de artesãos que trabalhavam no Vale dos Reis; – o Papiro Chassinat I (Louvre E 25351) da XXV dinastia, conservado no Louvre. Contém três páginas, mas a primeira está quase totalmente perdida.

O conto pertence a uma tradição escrita da elite. Foi copiado e lido ao longo de vários séculos, mantendo a sua presença na cultura literária do Egito.

Tradução integral dos fragmentos conservados

Fragmento, tOIC 13539

(Uma vez aconteceu que Sua Majestade, o rei do Alto e do Baixo Egito, Nefer)-ka-Rá, filho de Rá, verdadeiro de voz, era um rei [bondoso] [em toda esta terra]. Havia também um príncipe hereditário (e) /// de Sua Majestade, (aquele) ///, de nome Iti. [/// /// ///] amor [///] o general Sasenet, que não tinha esposa [em sua casa].

[E assim] o general Sasenet [saiu para passear], para se divertir. [///////] filho de Rá, Cheti, verdadeiro de voz…

pChassinat I = pLouvre E 25351

… o general Sa[senet]. Conversava [//////] com Sua Majestade, o rei do Alto e do Baixo Egito Nefer-ka-[Rá]. Então o general Sasenet dirigiu-se [/////] ao grande [///], o supervisor dos músicos (?) do rei, o grande intendente das propriedades, o camareiro, [//////] o escriba real, o portador da tábua de escrita do escriba real, o chefe dos campos, [//////] os [cortesãos (?)] da re[sidência] e os [membros do conselho (?)] de Mênfis, sem entrar em [//////] Mênfis.

Entretanto, o [peticionário (?)] de Mênfis chegou ao [supervisor da porta (?)]. Ele ///// com o canto dos cantores, com a música dos músicos, com o júbilo dos que se regozijavam, até o peticionário deixar Mênfis por causa de seus [///]. [Eles] pararam [//////]. Quando o peticionário saiu de Mênfis para falar com o supervisor da porta, fez (?) os cantores cantarem, os músicos tocarem, os que se regozijavam regozijarem-se, os que celebravam celebrarem, até o peticionário abandonar Mênfis sem ser ouvido, quando pararam de discutir com ele. Chorando amargamente, o peticionário deixou Mênfis; seus cabelos estavam ///////////////

Então ele (um certo Cheti) avistou (?) Sua Majestade, o rei do Alto e do Baixo Egito Nefer-ka-Rá, que saíra para passear sozinho, sem escolta. Cheti recuou diante do rei, sem se deixar ver por ele. Cheti, filho de Henet, parou e pensou: «Se é assim, então os rumores sobre os seus passeios noturnos são verdade.»

Então Cheti, filho de Henet, seguiu este deus, sem deixar que seu coração o condenasse, para observar cada uma de suas (isto é, do rei) ações. Então chegou à casa do general Sasenet. Lançou um tijolo depois de bater com o pé. Então desceram-lhe uma escada e ele subiu.

Entretanto, Cheti, filho de Henet, esperou até que Sua Majestade partisse. Depois de Sua Majestade ter feito o que desejava fazer com ele (isto é, com o general), dirigiu-se ao palácio, e Cheti seguiu-o. Somente quando Sua Majestade chegou à Grande Casa — vida, prosperidade, saúde — é que Cheti voltou para casa.

Quanto ao passeio de Sua Majestade à casa do general Sasenet, cabe notar que haviam passado quatro horas da noite. Mais quatro horas ele passou na casa do general Sasenet. E quando entrou na Grande Casa, restavam quatro horas até o amanhecer.

A partir de então, Cheti, filho de Henet, seguiu-o todas as noites, sem deixar que seu coração o condenasse. E somente depois de Sua Majestade [o rei] ter entrado na [Grande Casa, Cheti voltou para casa…]

Bibliografia e fontes
  • Dijk J. van. The Nocturnal Wanderings of King Neferkare, in Hommages Leclant 4, 387–393, 1994.
  • Greenberg D. F. The Construction of Homosexuality, 2008.
  • Parkinson R. B. ‘Homosexual’ Desire and Middle Kingdom Literature, Journal of Egyptian Archaeology, 1995.
TelegramInscreva-se no nosso canal do Telegram (em russo): Urania. Com o Telegram Premium, você pode traduzir as publicações diretamente no aplicativo. Sem Premium, muitas publicações contêm links para o nosso site, onde é possível trocar o idioma — a maioria dos novos artigos é publicada desde o início em vários idiomas.