A homossexualidade divina no mito egípcio antigo de Hórus e Set
«…como são belas as tuas nádegas, como são firmes! Abre as pernas», disse Set a Hórus.
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Um dos mais antigos mitos egípcios descreve o confronto entre Set e o seu sobrinho Hórus. Num dos episódios, Set tenta manter relações sexuais com Hórus para o humilhar e afirmar a sua própria superioridade. Hórus age de outra forma: apanha o sémen de Set com a mão e descarta-o.
Para um leitor moderno, tal enredo pode parecer inesperado. Por que motivo sacerdotes da Antiguidade incluíram num mito religioso uma cena ligada à homossexualidade masculina divina? Para compreender o sentido deste episódio, é necessário saber quem eram Hórus e Set, em que consistia a sua inimizade e que significado os egípcios atribuíam a estes atos nos seus mitos.
Quem são Hórus e Set
Hórus era um dos principais deuses da tradição egípcia antiga. Era representado como um falcão ou como um homem com cabeça de falcão. O seu nome costuma ser traduzido como «o elevado» ou «o distante». Este sentido relacionava-se com a capacidade do falcão de se elevar no céu, sublinhando assim a natureza divina do deus.
Desde os tempos mais remotos, o culto de Hórus estava ligado ao poder real. Os faraós consideravam-no o seu protetor celeste.
Segundo os mitos, Hórus era filho de Osíris e sobrinho de Set. Após a morte de Osíris, cabia a Hórus vingar o pai e fazer valer o seu direito ao trono do Egito. No confronto decisivo, venceu Set e confirmou esse direito.

Set também pertencia à geração mais antiga dos deuses egípcios. Era representado sob a forma de um animal singular, de focinho alongado e orelhas curtas. Segundo uma hipótese científica, o protótipo desta criatura pode ter sido o oricteropo.
Nos mitos, Set surge como uma divindade agressiva e cruel. Ele encarnava o caos, a destruição, o deserto e as terras estrangeiras — tudo o que se encontrava além do fértil vale do Nilo.
Em diferentes relatos, Set importuna deusas e tenta subjugar Hórus. Isto correspondia à sua função mitológica. Para os egípcios, tais atos exprimiam a natureza de Set como portador de uma força hostil e indomável. Ao mesmo tempo, o caos não era considerado um mal absoluto. Era entendido como uma parte necessária da ordem do mundo, sem a qual o equilíbrio seria impossível.
A imagem de Set foi mudando com o tempo. Nos textos mais antigos, ele ainda não aparece como a encarnação do mal absoluto — é antes um ser perigoso e astuto. Em épocas posteriores, foi sendo cada vez mais associado a estrangeiros e inimigos externos do Egito, acabando por se tornar definitivamente um símbolo de desordem e destruição.

Nas fontes antigas, Hórus e Set surgem frequentemente como um par. Eram chamados os «Dois Senhores», os «Dois Deuses», os «Dois Homens», bem como os «Dois Rivais» e os «Dois Adversários».
Estas fórmulas exprimem uma das ideias centrais da mitologia egípcia. O mundo assenta numa tensão constante entre a ordem e o caos. Hórus e Set representam exatamente esta oposição. A sua luta não destrói a ordem do mundo — pelo contrário, mostra como esta se mantém em equilíbrio.
História do mito «As Aventuras de Hórus e Set»
As versões mais antigas do mito sobre a inimizade entre Hórus e Set remontam ao período Pré-dinástico, ou seja, à época anterior ao aparecimento dos faraós e do Estado egípcio unificado. Nesta versão primitiva, intervêm apenas duas personagens — Hórus e Set. Surgem como rivais irreconciliáveis, lutando incessantemente e infligindo um ao outro graves ferimentos.
No final do Império Antigo, o enredo mudou. Osíris — irmão de Set e pai de Hórus — foi introduzido. Segundo a nova versão, Osíris pereceu às mãos de Set, e depois Set tentou eliminar também o seu filho para tomar o poder supremo entre os deuses. Este ciclo de mitos é conhecido como «As Aventuras de Hórus e Set». Nas fontes encontram-se também outros nomes: «A Disputa de Hórus e Set», «O Duelo» e «O Litígio».
Os mais antigos testemunhos escritos da luta entre estes deuses encontram-se nos Textos das Pirâmides — uma compilação de fórmulas mágicas e hinos religiosos gravados nas paredes das sepulturas reais no final do Império Antigo. Posteriormente, motivos semelhantes aparecem nos Textos dos Sarcófagos e no Livro dos Mortos, um grande corpus de encantamentos funerários.
As versões mais elaboradas do mito formaram-se na época do Império Médio, a partir de cerca de 2040 a.C. A redação mais conhecida data do final do Império Novo e é datada de aproximadamente 1160 a.C. Está preservada no Papiro Chester Beatty I, redigido em hierático — uma forma simplificada e mais rápida da escrita hieroglífica, usada na prática quotidiana.
O papiro foi encontrado em Deir el-Medina, uma povoação perto da antiga Tebas. Ali viviam os artesãos que criavam túmulos e pinturas para os faraós no Vale dos Reis.
A tradução e a primeira publicação do Papiro Chester Beatty I foram realizadas em 1931 pelo egiptólogo britânico Alan Henderson Gardiner. O nome do autor egípcio antigo do texto é desconhecido.
O escritor grego Plutarco, que viveu no século II d.C., também deixou um relato detalhado desta história.
Conteúdo geral do mito
Osíris governava o Egito como rei. O seu irmão Set invejava-o e decidiu matá-lo para tomar o trono. Armou uma conspiração e convidou Osíris para um banquete. Ali, Set propôs ao irmão que se deitasse numa arca ricamente decorada, feita exatamente à sua medida. Assim que Osíris ficou dentro, Set fechou a tampa e lançou a arca ao Nilo. Assim morreu Osíris.
A sua esposa Ísis partiu à procura do corpo. Quando o encontrou e tentou devolver Osíris à vida, Set interveio de novo: roubou o corpo, cortou-o em catorze pedaços e espalhou-os pelo Egito.
Ísis recomeçou a busca e reuniu quase todos os restos. Segundo a versão de Plutarco, não encontrou apenas o órgão sexual: supostamente, os peixes o tinham engolido. No entanto, na tradição egípcia existia também outra versão do relato — Ísis encontrou todas as partes do corpo. Com a ajuda de encantamentos, reavivou brevemente Osíris, e isso bastou para se unir a ele e conceber Hórus.

Hórus nasceu fraco e prematuro; as tradições dizem também que tinha as pernas doentes. Desde os seus primeiros anos, Set tentou livrar-se do sobrinho. Num dos relatos, Hórus quase morreu da picada de um escorpião, mas foi salvo por Rá, o deus do sol, e Tot, o deus da sabedoria.
Agora o trono deveria, por direito, passar a Hórus. Set, contudo, afirmava que o jovem deus era demasiado inexperiente para governar e exigia ser ele próprio reconhecido como rei. A pedido de Ísis, os deuses convocaram um tribunal. Rá presidiu como juiz principal, e Tot registou as sessões.
O litígio prolongou-se por oitenta anos. Uns deuses apoiavam Hórus, outros Set, sendo que o próprio Rá se inclinava mais frequentemente para o lado de Set. Para pôr fim à disputa, os deuses recorreram à deusa da sabedoria Neit. Ela proferiu o veredicto final: o trono deveria pertencer a Hórus. Ao mesmo tempo, Neit tentou apaziguar Set, prometendo-lhe as deusas Anat e Astarte como esposas.
Mas mesmo depois disso Rá continuava a hesitar, e as sessões eram adiadas vezes sem conta. A pedido de Set, foi proibida a participação de Ísis no processo, e Rá concordou. Ísis não se submeteu. Mudou de aparência, subornou o guarda chamado Anti e entrou na sala do tribunal. Assumindo a forma de uma jovem, seduziu Set, e este reconheceu por si mesmo que o reino deveria pertencer ao filho dela. Quando Ísis revelou quem realmente era, Set ficou desonrado. Depois disso, os deuses decidiram coroar Hórus, e Anti foi punido pela traição.
Set, porém, não se conformou e propôs uma nova prova. Ambos os deuses deveriam transformar-se em hipopótamos, mergulhar no Nilo e suster a respiração debaixo de água durante três meses. O vencedor seria aquele que aguentasse mais tempo.
Temendo pelo filho, Ísis fabricou uma lança mágica e atirou-a. Primeiro atingiu por engano o próprio Hórus, depois acertou em Set. Quando Set começou a implorar clemência, Ísis compadeceu-se e retirou a lança. Hórus, indignado com a sua indulgência, enfureceu-se e decapitou a mãe. Ísis transformou-se de imediato numa estátua de pedra sem cabeça. Tot devolveu-lhe a vida, colocando-lhe uma cabeça de vaca.
Depois disso, Hórus abandonou a assembleia dos deuses e retirou-se para o deserto. Ali Set alcançou-o, arrancou-lhe os olhos — segundo outra versão, apenas o esquerdo — e enterrou-os na terra. A deusa Hátor apiedou-se de Hórus, preparou um remédio com leite de antílope, e a visão voltou-lhe, embora os próprios olhos nunca tenham sido encontrados.
Exausto por esta contenda, Rá exigiu que Hórus e Set se sentassem pelo menos à mesma mesa de banquete. Mas o conflito não terminou aí.
A parte homossexual do mito
Set não desistiu da luta e fez uma nova tentativa de humilhar Hórus. Convidou o sobrinho a passar a noite na sua casa, e Hórus aceitou. Durante a noite, Set tentou violá-lo. Na cultura do antigo Egito, uma cena deste tipo era entendida como uma tentativa de humilhar o rival e privá-lo do direito ao poder.
Hórus evitou a violência: apanhou o sémen de Set com as mãos e levou-o a Ísis.
Ísis, ao saber do que acontecera, ficou horrorizada. Decidiu «purificar» o filho, cortou-lhe as mãos e lançou-as ao Nilo, restaurando-as depois por meio de magia. Em seguida, masturbou Hórus, recolheu o seu sémen e, com astúcia, espalhou-o numa alface — a comida favorita de Set. Sem nada suspeitar, Set comeu o prato e ficou «grávido» de Hórus.
Mais tarde, surgiu na testa de Set um disco brilhante, semelhante à lua. Tentou livrar-se dele, mas o deus da sabedoria Tot apoderou-se do disco e fez dele o símbolo do astro noturno.
Eis como as fontes o descrevem. No Papiro de Kahun, composto na época do Império Médio, Set convence Hórus a passar a noite consigo e elogia as suas nádegas; o historiador Parkinson considera este episódio um dos mais antigos exemplos de cortejo:
«A Majestade de Set disse à Majestade de Hórus: como são belas as tuas nádegas, como são firmes! … Abre as pernas…
E o divino Hórus disse: «Cuidado, vou contar o que aconteceu!»»— Papiro de Kahun, diálogo de Set e Hórus
Depois disso, Hórus queixou-se à mãe das investidas de Set, e Ísis explicou-lhe como evitar a violência e, ao mesmo tempo, conservar o sémen de Set.
«E ela disse-lhe: “Tem cuidado! Não levantes essa questão com ele! Quando ele voltar a falar nisso, diz-lhe então: «É demasiado doloroso para mim, porque tu és mais pesado do que eu. A minha força [traseiro] não suporta a tua força [ereção]…» Quando ele te der a sua força, coloca os dedos entre as nádegas. … Então ele sentirá grande prazer. [Guarda] esse sémen que sair e não deixes que o sol o veja…”»
— Papiro de Kahun, diálogo de Set e Hórus
Depois, Ísis colocou o sémen de Hórus na alface favorita de Set. Quando Set, seguro da sua vitória, se vangloriou perante os deuses de ter possuído o sobrinho, os deuses decidiram pôr ambos à prova.
Ao seu chamamento, o sémen de Set respondeu da água, enquanto o sémen de Hórus apareceu na testa de Set sob a forma de um disco dourado. O deus Tot tomou esse sinal para si e fez dele o símbolo da lua.
Outra fonte são os Textos das Pirâmides, datados da Quinta Dinastia. Este excerto só foi publicado em 2001, após a descoberta na pirâmide do faraó Pepi I. Aqui, Set e Hórus são descritos como participantes iguais de um ato sexual — ambos assumem o papel ativo:
«Se Hórus depositou o seu sémen no traseiro de Set, é porque Set depositou o seu sémen no traseiro de Hórus!»
— Textos das Pirâmides, Quinta Dinastia
Uma versão mais tardia do mito data do Império Novo, do final da XX dinastia, por volta de 1160 a.C. Nela, este episódio é contado de forma diferente:
«Set disse a Hórus: «Vem, passemos uma hora agradável na minha casa.»
Hórus respondeu: «Com prazer, com prazer.»
Quando anoiteceu, fizeram-lhes a cama e deitaram-se. De noite, Set enrijeceu o seu membro e colocou-o entre as coxas de Hórus. Hórus pôs as mãos entre as suas coxas e apanhou o sémen de Set.»— Versão tardia do mito, Império Novo (final da XX dinastia)
Depois, Hórus foi ter com a mãe e mostrou-lhe o sémen:
«Ajuda-me! Vem, olha o que Set me fez. E abriu a palma da mão e mostrou-lhe o sémen de Set. Com um grito, ela pegou numa arma, cortou-lhe a mão e atirou-a à água; depois, com a ajuda de um encantamento, fez-lhe uma mão nova. Em seguida, Ísis ajudou Hórus a expelir o sémen e, com astúcia, espalhou-o numa alface — o legume favorito de Set — e deu-lha a comer.»
— Versão tardia do mito, Império Novo (final da XX dinastia)
Quando Set se apresentou perante o conselho dos nove deuses supremos — a Enéade —, afirmou que possuíra Hórus e cumprira «o ato de um homem [de um guerreiro]». Os deuses enfureceram-se: gritaram, cuspiram na cara de Hórus e manifestaram a sua indignação.
Depois, os deuses convocaram o sémen, e o engano foi revelado.
No final do mito, interveio Osíris, que até então se mantivera em silêncio. Acusou os deuses de fraqueza e ameaçou enviar fome e doenças sobre o Egito a partir do mundo subterrâneo, onde agora reinava, caso não reconhecessem os direitos de Hórus. Perante esta ameaça, os deuses decidiram a favor de Hórus e reconheceram-no como herdeiro legítimo do poder real.
Set, contudo, não foi rejeitado. Foi colocado ao lado do deus solar Rá e chamado «aquele que ruge no céu». A partir desse momento, firmou-se como divindade da tempestade e do trovão: temível, mas venerado.
Interpretações do episódio homossexual
Na tradição académica inicial, o episódio da agressão de Set a Hórus era frequentemente tratado como cómico e obsceno. Alan Henderson Gardiner, tradutor e estudioso dos mitos egípcios, qualificou-o de exemplo de «literatura frívola». O seu olhar puritano impedia-o de encarar tais enredos como parte séria de um texto religioso. A decapitação de Ísis, as mutilações de Hórus, os ferimentos nos olhos e o comportamento homoerótico de Set eram, na sua opinião, material de valor duvidoso, que, a seu ver, poderia ter sido lido a camponeses em cerimónias fúnebres.
Mais tarde, as interpretações mudaram. Os historiadores Henri Frankfort e Adriaan de Buck viram no mito a expressão do dualismo que está na base da visão do mundo egípcia. Na sua leitura, o mundo egípcio assentava em opostos complementares: o masculino e o feminino, o céu e a terra, a ordem e o caos. Hórus e Set encarnavam essas forças, e a sua luta simbolizava o confronto perpétuo de antagonistas, no qual a ordem acaba por prevalecer e Hórus afirma o seu domínio.
Em 1967, o historiador Herman te Velde, no seu livro Seth, God of Confusion («Set, deus da confusão»), propôs uma interpretação mais complexa. Ele ligava o mito a uma antiguidade remota, quando se formavam as conceções religiosas e os rituais. Hórus personificava a ordem real, e Set a instabilidade, a fúria e a loucura. A sexualidade de Set, segundo te Velde, dirigia-se tanto a homens como a mulheres, e os seus testículos — portadores de energia sexual — simbolizavam forças cósmicas destrutivas e convulsões sociais. A vitória de Hórus não destruía Set definitivamente. A sua união, pelo contrário, exprimia a harmonia dos contrários, e o faraó era concebido como uma figura que unia ambas as forças.
O historiador Wolfhart Westendorf ofereceu outra explicação. Observou que os egípcios consideravam o sémen um veneno se penetrasse no corpo de forma indevida. No entanto, Set, que engolira o sémen com a alface, não morreu. Por isso, segundo Westendorf, o que importava aos deuses neste episódio não era o sémen em si, mas o estatuto do participante no ato: quem ocupa a posição «feminina» não pode reivindicar o poder real.
O investigador Dominic Montserrat deslocou a ênfase para a igualdade dos adversários. Na sua interpretação, Hórus e Set são deuses adultos do mesmo escalão. Hórus aceita a proximidade, mas evita a relação anal, enquanto Set exibe abertamente o seu desejo. Daí Montserrat extrai uma conclusão cautelosa: o desejo de um homem por outro homem no Egito provavelmente não era, por si só, considerado proibido, mas a submissão anal era encarada como desonra. Tais relações eram conhecidas e era possível nelas participar; todavia, a questão decisiva continuava a ser a do estatuto.
Um papel particular no mito cabe à alface sobre a qual Ísis aplicou o sémen de Hórus. Na cultura egípcia, esta planta estava associada à fertilidade masculina. Através deste motivo, Set é simbolicamente «fecundado» e, num certo sentido, remetido para o papel feminino, o que o priva definitivamente do direito ao poder supremo.
Ao mesmo tempo, o mito conserva uma contradição interna. Para Hórus, a ameaça de se encontrar na posição subordinada era infamante, mas foi precisamente o seu sémen dentro de Set que gerou o símbolo divino lunar.
O simbolismo do poder no mito
Desde as suas fases mais remotas, o mito da luta entre Hórus e Set esteve ligado ao poder real no Egito. O egiptólogo alemão Kurt Heinrich Sethe considerava que esta lenda refletia a luta entre o Alto e o Baixo Egito. Contudo, investigações mais recentes mostram que provavelmente não se tratava de um confronto entre as duas metades do país, mas sim de uma rivalidade mais antiga entre as cidades de Nekhen e Nubt.
Os dados arqueológicos indicam que, por volta de 3500 a.C., os habitantes destes centros veneravam Hórus e Set como os seus principais protetores. Após a vitória de Nekhen, a correlação de forças mudou: os seus governantes submeteram o Egito e declararam o país sob a proteção de Hórus. Os primeiros reis começaram a incluir o nome desta divindade nos seus títulos. Entre eles encontram-se Hor, Ni-Hor, Hat-Hor, Pe-Hor e outros.
Com o tempo, os egípcios passaram a perceber o país como um todo único composto pelas «Duas Terras» — o Alto e o Baixo Egito. O símbolo desta unificação foi a coroa do faraó, o Pschent (pꜣ-sḫm.ty), que reunia a coroa branca e a vermelha. O faraó era concebido como a encarnação dos «Dois Lutadores» — Hórus de Nekhen e Set de Nubt.
Essa associação exprimia a união ritual de forças opostas. Já durante a I dinastia surgiu o título «Hórus-Set». Neste par, Hórus representava a ordem e a harmonia, e Set a energia destrutiva dirigida contra os inimigos do Egito.

O Olho de Hórus e os Testículos de Set
Na mitologia egípcia antiga, a luz e a sexualidade eram frequentemente apresentadas como duas forças opostas. Já nos textos mais antigos, esta oposição era expressa por meio de duas imagens: o Olho de Hórus e os Testículos de Set. Quando um destes símbolos ocupava o centro das atenções, o outro recuava para segundo plano.
O Olho de Hórus estava associado à lua e às suas fases. Na tradição sacerdotal, designava a luz, a renovação e o renascimento contínuo. Eram-lhe contrapostos os Testículos de Set — signo de uma sexualidade caótica e descontrolada, bem como das paixões e desejos humanos. Essa energia era considerada potencialmente benéfica, mas apenas sob a condição de ser controlada e subordinada à ordem.
O próprio Set estava associado a este quadro simbólico. Nos mitos, manifesta desejo tanto por mulheres como por homens. Os seus testículos estavam ligados não só à força sexual, mas também a manifestações destrutivas da natureza — trovões, tempestades e furacões. Num sentido mais amplo, podiam significar fúria, violência e convulsões sociais.
Algumas destas representações estão registadas nos Textos das Pirâmides:
«Quando nenhuma fúria ainda se levantara.
Quando nenhum grito ainda se levantara.
Quando nenhuma disputa ainda se levantara.
Quando nenhuma desordem ainda se levantara.
Quando o Olho de Hórus ainda não amarelecera.
Quando os Testículos de Set ainda não se tinham tornado impotentes.»— Textos das Pirâmides
«Hórus caiu por causa do seu Olho; Set sofreu por causa dos seus Testículos.»
— Textos das Pirâmides
«Hórus caiu por causa do seu Olho; o Touro desapareceu por causa dos seus Testículos.»
— Textos das Pirâmides
«…para que Hórus se purifique do que lhe fez o seu irmão Set,
para que Set se purifique do que lhe fez o seu irmão Hórus.»— Textos das Pirâmides
O deus Tot como filho de Hórus e Set
Na tradição egípcia, a origem da Lua também estava ligada aos mitos de Hórus, Set e Tot. Segundo uma das versões, o disco lunar surgiu da testa de Set depois de este ter engolido alface embebida no sémen de Hórus. O sémen inflamou-se e transformou-se num disco dourado que brilhava na cabeça de Set. Tot, o deus da sabedoria, tomou esse disco e usou-o como coroa.

Este motivo já surge nos Textos das Pirâmides. Aí se diz ou que Tot provém de Set, ou que a Lua foi extraída diretamente da sua testa. Mais tarde, nos Textos dos Sarcófagos, Tot dirige-se a Osíris e chama a si próprio «o filho do seu filho, a semente da sua semente». Esta fórmula sublinha a sua origem a partir de Hórus e faz dele neto de Osíris.
Noutras fontes, Tot é chamado «o filho dos Dois Rivais» ou «o filho dos Dois Senhores, que saiu da testa». Este nascimento invulgar era entendido como sinal de reconciliação. Tot revelou-se filho de dois deuses ao mesmo tempo e, por isso, agia como mediador capaz de pôr fim à inimizade entre ambos.
Existia também outra versão do mito. Nela, Set, durante o duelo, arranca a Hórus os dois olhos — ou apenas o esquerdo. O olho lançado ao chão parte-se em seis pedaços. Tot reúne-os, cura o olho e devolve-o a Hórus. O sentido deste episódio é a restauração da ordem cósmica perturbada pela luta. A harmonia regressa quando Hórus recupera o seu olho e Set reconquista as forças perdidas. Nos Textos das Pirâmides, isso é expresso da seguinte forma:
«Portadores de Hórus, que amaram Teti, porque lhe trouxe o seu Olho!
Portador de Set, que amou Teti, porque lhe trouxe os seus Testículos!
Portador de Tot, que ama Teti!
Por causa deles tremeu a Dupla Enéade!
Mas os portadores que Teti ama — são os portadores para a mesa de oferendas!»— Textos das Pirâmides
Hórus e Set no túmulo de Niankhkhnum e Khnumhotep
O relato do confronto entre Hórus e Set não se encontra apenas em papiros, mas também nas pinturas murais de túmulos egípcios. Um dos exemplos mais célebres está associado ao túmulo de Niankhkhnum e Khnumhotep. Estes dois homens viveram no antigo Egito e são considerados o primeiro casal homossexual conhecido da história.
Numa das paredes, Khnumhotep é representado com um lótus nas mãos; ao lado, vê-se uma cena com músicos. O regente do coro dirige-se a três cantores e dois harpistas com as palavras: «Toquem a dos “Dois Irmãos Divinos”.»
Os investigadores supõem que no banquete em honra destes homens se interpretava uma canção ligada ao mito da luta entre Hórus e Set. Tais textos podiam ser notavelmente diretos e até grosseiros, pelo que não é de excluir que tal canção fosse recebida como um número de entretenimento nos festins da elite.
Bibliografia e fontes
- Assmann J. Mort et au-delà dans l’Égypte ancienne, 2003.
- Broze M. Mythe et roman en Égypte ancienne. Les aventures d’Horus et Seth dans le Papyrus Chester Beatty I, 1996.
- Gerig B. L. Homosexuality and the Bible.
- Reeder G. Same-Sex Desire, Conjugal Constructs, and the Tomb of Niankhkhnum and Khnumhotep, World Archaeology, 2000.
🏺 LGBT History of Ancient Egypt
- A Queer Lexicon of Ancient Egypt
- Divine Homosexuality in the Ancient Egyptian Myth of Horus and Seth
- Khnumhotep and Niankhkhnum: The First Same-Sex Couple in History
- A Homoerotic Plot in Ancient Egyptian Literature: Pharaoh Pepi II Neferkare and General Sasenet
- Idet and Ruiu: Lesbian Lovers in Ancient Egypt?
- A Possible Scene of Same-Sex Intercourse from Ancient Egypt — The Love Ostracon
- Goddess Nephthys — a lesbian?