A história da homossexualidade masculina no Senegal
Das observações coloniais dos góor-jigéen ao pânico mediático no início do século XXI.
Índice

O Senegal é um país no extremo oeste de África, banhado pelo Oceano Atlântico. A maioria dos seus habitantes professa o islamismo. Antes de conquistar a independência em 1960, o Senegal foi uma colónia francesa, e a sua capital, Dakar, serviu como o principal centro de toda a África Ocidental Francesa. Para a história da homossexualidade local isso é importante: foi precisamente na cidade portuária e mista de Dakar que os europeus notaram com maior frequência relações entre pessoas do mesmo sexo e homens que assumiam papéis femininos.
A palavra-chave nesta história é góor-jigéen (literalmente «homem-mulher»). Ela provém do idioma uolofe, falado pelo maior grupo étnico do Senegal e que serve como a principal língua de comunicação no país. No século XX, chamava-se assim a um homem que se vestia e se comportava como uma mulher, e que também desempenhava um papel especial em festividades. No entanto, com o tempo, o significado da palavra mudou. No final do século, tornou-se um insulto grosseiro para qualquer homem gay. Esta mudança reflete como a atitude em relação às pessoas LGBT evoluiu no Senegal.
Primeiras observações dos europeus
As evidências escritas de relações entre pessoas do mesmo sexo no Senegal começam a aparecer no final do século XIX. Os habitantes locais, mesmo aqueles que sabiam escrever, quase nunca registavam tais práticas. Portanto, o que sabemos sobre o passado provém essencialmente de registos de médicos, funcionários e etnógrafos franceses.
Uma das descrições mais antigas foi deixada em 1894 pelo médico da marinha francesa Armand Corre. No norte do Senegal, ele encontrou homens em roupas de mulher:
«Encontrei em Saint-Louis negros adornados à maneira das mulheres e adotando posturas correspondentes; disseram-me que ganham a vida através da prostituição. Em Boké, vi na corte de um príncipe [do povo] fula um griô [cantor] cujas danças voluptuosas traduziam bem o papel mais íntimo que ele devia desempenhar na casa deste nobre. Os costumes da pederastia não se estendem além do meio muçulmano. Na língua uolofe, a expressão para designá-los parece ter surgido recentemente, e na maioria das línguas africanas não existe».
— Armand Corre, 1894

Em 1935, o antropólogo britânico Geoffrey Gorer descreveu esse papel social de forma mais detalhada. Ficou surpreendido com a abertura com que estas pessoas viviam e com a calma com que a sociedade as tratava:
«Diz-se que a homossexualidade entre os uolofes é um fenómeno recente, pelo menos a uma escala significativa; no entanto, ela goza agora, e já há alguns anos, de um patrocínio tão extraordinariamente elevado e quase publicamente demonstrado, que os homossexuais passivos são uma visão comum. Na língua uolofe chamam-lhes ‘homens-mulheres’, gor-digen, e eles tentam por todos os meios merecer este nome através das suas maneiras, roupas e maquilhagem; alguns usam até penteados como as mulheres. Socialmente não sofrem de forma alguma, embora os muçulmanos lhes recusem um funeral religioso; pelo contrário, são procurados como os melhores conversadores e os melhores dançarinos».
— Geoffrey Gorer, 1935
Quem eram os tapèt?
Em 1931, o etnógrafo francês Michel Leiris testemunhou uma cena diferente em Dakar. Num clube de dança local, descreveu «pederastas negros dançando juntos com pequenos casacos justos; um pederasta branco com aparência de empregado de escritório dançando com uma flor na boca junto a um marinheiro negro com um pompom vermelho».
Aqui descreve-se uma simples atração pelo mesmo sexo sem a feminilidade pronunciada característica dos góor-jigéen. Isso significa que no Senegal colonial existiam diferentes formas de homossexualidade: desde o travestismo público até a festas normais para homens.
Um testemunho de 1955, deixado pelo professor francês Charles Béart, separa explicitamente estes dois grupos:
«O problema dos ngor-digen uolofes é mais complexo. Há os tapèt — homossexuais bastante semelhantes aos seus homólogos europeus e muitas vezes associados a eles nas paragens portuárias onde estão presentes; mas também há os ngor-digen, que em alguns aspetos fazem pensar no xamanismo: vestidos de homem mas de forma feminina, com gestos afeminados, ou mesmo completamente em roupa de mulher, guiando as mulheres, balançando as ancas, ao tam-tam de fanal [festa das lanternas] ou faux-lion [falso leão]».
— Charles Béart, 1955
A palavra tapèt foi emprestada da gíria francesa, onde tapette significa literalmente «maricas». Em francês deriva do verbo taper (bater) e do sufixo feminino -ette. Denegria os homossexuais ao equipará-los a mulheres fracas.
No Senegal, a palavra enraizou-se, mas adquiriu um significado mais restrito. Enquanto os góor-jigéen eram figuras públicas que ocupavam um lugar especial nas festas femininas, os tapèt comportavam-se mais segundo o modelo europeu. Mantinham relações entre pessoas do mesmo sexo — frequentemente com marinheiros europeus no porto — mas preservavam um aspeto masculino comum.
Esta vida oculta mas vibrante é bem transmitida pelo jornalista inglês Michael Davidson, recordando a Dakar do final dos anos 40 e da década de 50:
«Em 1949, Dakar já era a cidade ‘gay’ da África Ocidental. Quando lá voltei nove anos depois, os governantes franceses tinham partido, e Dakar tinha-se tornado ainda mais gay… Por algumas razões, profundamente enraizadas na história e na etnografia, os senegaleses têm em todas essas regiões a reputação de serem homossexuais, e em Dakar percebe-se rapidamente que mereceram essa reputação…»
— Michael Davidson, 1970 (sobre 1949 e 1958)
Durante a sua segunda visita, Davidson participou numa festa nos subúrbios:
«O local estava cheio de adolescentes africanos com roupas de mulher. Com roupas de mulher. Quero dizer que a maioria deles estava realmente vestida com roupas de rapariga: uns à europeia, outros com elaborados toucados da moda da África Ocidental. Foi verdadeiramente uma festa de travestismo, e à parte de nós e talvez de dois ou três espetadores adultos africanos, diria que ninguém lá tinha mais de dezoito anos, e a maioria rondava os quinze».
— Michael Davidson, 1970
Dakar como centro de atração
Dakar, como um grande porto, reunia pessoas muito diferentes: africanos, mauritanos, europeus. Foi aqui que as relações entre pessoas do mesmo sexo eram mais notórias.
O antropólogo britânico David P. Gamble salientou que a homossexualidade «tinha enraizado firmemente nas grandes cidades». O historiador Michael Crowder descreveu a Praça da Independência em Dakar, que durante décadas se tornou o principal ponto de encontro dos gays locais. Destacou que a sociedade os tratava com uma calma surpreendente:
«A homossexualidade gozava de muito maior liberdade que a prostituição, estando disseminada entre africanos, mauritanos e europeus. Hoje em dia é possível até ver homens uolofes vestidos com roupas de mulher. Uma vez encontrei um deles num pequeno bar perto de Dakar. Era evidente e pateticamente afeminado. Os uolofes devem estar habituados a isso, já que até têm uma palavra para eles: Gor-Digen. Os anciãos e os muçulmanos devotos condenam os homens por isso, mas de forma típica para a tolerância africana, o resto das pessoas deixa-os em paz em grande parte».
— Michael Crowder, 1959

Depois de 1960, quando o Senegal se tornou independente, as menções nos documentos diminuíram. Esta pausa durou até ao início dos anos 90. Depois, a revista gay francesa Gai pied hebdo voltou a escrever sobre os góor-jigéen, destacando a sua natureza pública:
«Os goor-jigeen em alguns aspetos podem ser assemelhados àqueles a que no Ocidente se chama ’loucas’. Reconhecidos e aceites pela sociedade como tais, distinguem-se por uma feminização excessiva não só do corpo e comportamento, mas também do vestuário, que quase roça o travestismo».
— Mamou Diouf, Gai pied hebdo, 1991
Quem eram realmente os góor-jigéen?
A palavra góor-jigéen está profundamente enraizada no idioma uolofe. Os uolofes constituem mais de 40% da população do Senegal, e o seu idioma é compreendido por cerca de 80% dos residentes. Portanto, o termo é conhecido muito além de um único povo. É usado na Gâmbia e Mauritânia, e no Mali integrou-se no idioma bambara.
Ao longo de todo o século XX, o góor-jigéen era um homem que adotava traços femininos. Usava roupa de mulher, maquilhava-se e às vezes clareava a pele. Movia-se estreitamente nos círculos femininos, especialmente entre damas nobres: as diriyanké. Uma pessoa assim ajudava a organizar casamentos e batizados, preparava a comida e atuava como mestre de cerimónias. No Senegal, ainda se diz «molho góor-jigéen», recordando os seus talentos culinários.
Um professor de Dakar lembrou o seu alto estatuto numa entrevista:
«Eram verdadeiramente grandes damas, porque hoje em dia não te posso dar conselhos sobre roupas ou cosméticos se eu próprio não for um bom exemplo. O góor-jigéen era algo como um fazedor de reis ou rainhas, porque era ele quem movia muitos cordelinhos. Por exemplo, para que uma dama ficasse bem na sociedade, precisava de ter o seu góor-jigéen. E ao mesmo tempo, o góor-jigéen era também um casamenteiro, alguém que arranja assuntos amorosos; desempenhava o papel de mediador».
— Entrevista com o informador A., professor, Dakar, 2014
O antropólogo Cheikh I. Niang acredita que na época colonial os góor-jigéen chegaram a ter mesmo influência política. O futuro primeiro presidente do país, Léopold Sédar Senghor, apoiou-se grandemente no apoio de mulheres influentes. Segundo uma versão, os góor-jigéen da cidade de Saint-Louis ajudaram-no a ganhar as eleições: organizaram-lhe uma entrada triunfal e receberam-no com palavras de ordem especiais.
A revista Gai pied hebdo chamava-lhes «fustigadores dos bons costumes» pelo seu domínio magistral da ironia. Neste sentido, os góor-jigéen pareciam-se com os griôs, cantores tradicionais errantes aos quais era permitido gozar com os vícios da sociedade. Também organizavam frequentemente sabar: danças de rua ao ritmo dos tambores.
Como o papel social se tornou um estigma
Até à década de 1980, os senegaleses julgavam os góor-jigéen pela sua função social. Era um homem que desempenhava o papel de mulher, e a sociedade concedia-lhe o direito a isso. A sua vida sexual permanecia na sombra: as pessoas ou não sabiam de nada, ou fechavam os olhos a isso. Alguns góor-jigéen chegaram a casar e a ter filhos.
Os primeiros europeus equipararam imediatamente os góor-jigéen aos homossexuais. Mas julgavam de acordo com os seus próprios padrões ocidentais. Os próprios senegaleses viam isso de forma diferente.
Tudo desmoronou quando o amor entre pessoas do mesmo sexo começou a ser discutido abertamente no país. A pressão sobre os homossexuais intensificou-se, e essa negatividade atingiu inevitavelmente os góor-jigéen. Em Dakar, os mais velhos podiam respeitar os góor-jigéen tradicionais pela sua ajuda nas festividades, mas, ao mesmo tempo, odiar os «gays». Com o tempo, ambos os conceitos fundiram-se.
O mesmo professor de Dakar explicava esta lógica:
«O góor-jigéen na sociedade senegalesa era considerado mais ou menos como um ator. Um ator pode mudar de traje, pode mudar de pele, pode desempenhar vários papéis de uma só vez, e o homossexual era mais visto como um ator, isto é, um homem que gostava de fazer de mulher… Isso não chocava em excesso».
— Entrevista com o informador A., professor, Dakar, 2014
Mas assim que o pano de fundo sexual se tornou evidente, a tolerância desapareceu:
«E então o senegalês comum começou a compreender que essas pessoas têm uma sexualidade, que já não é uma comédia… E foi precisamente então que vimos, por exemplo, alguns góor-jigéen que tinham destaque na sociedade, isto é, eram aceites nalgumas casas, nalguns círculos — e num belo dia foram expulsos… Assim que se descobria que era um góor-jigéen, ou seja, uma pessoa que tinha relações sexuais com um homem, expulsavam essas pessoas».
— Ibidem
Um médico de Dakar confirmou que o antigo respeito deu lugar ao medo:
«Desde que se soube, o góor-jigéen desapareceu, o góor-jigéen como tal — afeminado, com maneirismos, e tudo isso… agora toda a gente sabe que o góor-jigéen não era apenas uma pessoa afeminada, mas um homossexual que tinha relações com homens».
— Entrevista com o informador B., médico, Dakar, 2014
A palavra inofensiva ou até prestigiosa góor-jigéen transformou-se num insulto grosseiro.

A imprensa, os islamitas e o fim de uma época
Na década de 1990, começaram no Senegal as investigações sobre as vias de transmissão do VIH. Os cientistas descobriram que em Dakar a palavra góor-jigéen se tinha tornado definitivamente sinónimo da palavra «gay». Os próprios homossexuais começaram a ter um medo pânico dela. Num estudo de 2002, um residente local relatou:
«Este termo é como o som de uma sirene, depois da qual esperamos insultos, golpes e pedras atiradas contra nós pelas multidões enlouquecidas».
— Estudo de C. I. Niang et al., 2002
Na década de 1980, apareceu a imprensa independente no Senegal, e na década de 1990 floresceram os jornais tablóides — publicações baratas ávidas de escândalos. Anteriormente, os rumores sobre a orientação de alguém não saíam dos limites de um bairro. Agora, todo o país falava sobre isso.
Ao mesmo tempo, a organização islâmica Jamra lançou uma campanha contra a homossexualidade, chamando-lhe «flagelo social». Qualquer homem vestido de forma um pouco mais feminina tornava-se suspeito. Em 1999, um espetáculo que incluía travestis masculinos na estância de Saly causou um enorme escândalo. A Jamra conseguiu que o clube fosse encerrado. O jornal Le Matin constatou na altura:
«Nas grandes aglomerações urbanas coloniais dessa época, tolerava-se estes homens afeminados. Quando estes bufões começaram a levar-se a sério… as pessoas entregaram-nos ao linchamento popular. Tornaram-se ‘goordjiguène’, cujo destino diário desde então consiste em ser apedrejados e ridicularizados…»
— jornal Le Matin, 1999
A situação agravou-se no início dos anos 2000. A luta contra a SIDA tirou os gays da sombra: recebiam ajuda de fundações de beneficência, mas isso também atraía a fúria dos conservadores. A internet de massas e a televisão por cabo exacerbaram o conflito. Na sociedade enraizou-se a ideia de que a homossexualidade era uma infeção ocidental que ameaçava as tradições senegalesas.
O país ultrapassou o ponto sem retorno em 2008. A imprensa sensacionalista publicou fotos de um casamento gay secreto em Dakar. Em resposta, desencadeou-se uma onda de prisões e penas de prisão. Pela primeira vez, a polícia começou a aplicar massivamente um antigo artigo do Código Penal que punia o «ato contra a natureza».
Porque desapareceram as velhas tradições
Os góor-jigéen tradicionais não desapareceram unicamente devido à perseguição. Os próprios homossexuais senegaleses mudaram.
Antigamente, os mais velhos apadrinhavam os jovens e ensinavam-lhes as regras de sobrevivência. Explicavam como se comportar para que a sociedade fizesse vista grossa em relação às suas vidas. Mas quando começou a caça às bruxas, a ligação entre as gerações quebrou-se. Os rapazes jovens já não compreendiam os limites do permitido:
«Sentiram atração por homens, encontraram lugares onde podiam encontrar homens, — e lá foram! Sem sequer saberem como funciona… em qualquer sociedade… há códigos, há regras de comportamento, caso contrário não se consegue funcionar!»
— Entrevista com o informador A., professor, Dakar, 2014
Além disso, os jovens já não queriam ser «fazedores de molho» nem branquear a pele. Rejeitavam os papéis femininos:
«Eu sabia que era como eles, mas não queria chegar a esse extremo… Vês um verdadeiro góor-jigéen na rua — e sabes imediatamente quem é».
— Entrevista com o informador B., médico, Dakar, 2014
Os jovens gays queriam viver abertamente. Isto aterrorizava os mais velhos: compreendiam que os abraços em público iriam destruir os restos de tolerância. E tinham razão. A sociedade respondeu à abertura com rusgas e julgamentos. A velha tradição, que permitia aos homens-mulheres encontrar o seu lugar no Senegal, foi destruída, e a palavra que os designava tornou-se um insulto.
Literatura e fontes
- Christophe Broqua. Góor-jigéen: la resignification négative d’une catégorie entre genre et sexualité (Sénégal). Socio, n.º 9. 2017.