Escassez de preservativos na Índia devido à guerra entre EUA e Irã ameaça aumentar casos de VIH
As interrupções no comércio marítimo causadas pela guerra entre os EUA e o Irã levaram a uma escassez de preservativos na Índia. Os preços no varejo subiram até 50%. Ativistas alertam que a crise pode agravar os riscos de transmissão do VIH no país.
O conflito ao redor do Estreito de Ormuz prejudicou o fornecimento de matérias-primas para a indústria indiana de preservativos, avaliada em 1 bilhão de dólares. A produção depende da importação de óleo de silicone (usado como lubrificante) e amônia (que estabiliza o látex cru). A Índia compra cerca de 86% de sua amônia anidra de países da Ásia Ocidental — Arábia Saudita, Catar e Omã. Espera-se que os preços da amônia subam entre 40% e 50%. A escassez e o aumento dos custos dos materiais de embalagem, incluindo papel alumínio e filme de PVC, exercem pressão adicional sobre os fabricantes. Como resultado, o modelo de mercado indiano de preservativos, baseado em grandes volumes e margens baixas, está sob ameaça.
A Índia tem a segunda maior população do mundo de pessoas vivendo com o VIH — cerca de 2,5 milhões de pessoas (dados de 2024). De 2010 a 2024, o país reduziu quase pela metade o número de novas infecções e diminuiu as mortes relacionadas à AIDS em mais de 80%. De acordo com o ativista LGBT indiano Ankit Bhuptani, esse progresso dependeu de preservativos acessíveis e programas educacionais para homens que fazem sexo com homens e pessoas transgênero.
Segundo um relatório governamental, 5,4% dos novos casos de VIH em 2024-2025 estiveram ligados à transmissão entre homens. Bhuptani observou em um comentário ao Washington Blade que a escassez surgiu exatamente quando a comunidade LGBT começou a buscar atendimento médico com mais frequência após a revogação da Seção 377 em 2018 (que criminalizava relações entre pessoas do mesmo sexo). O ativista teme que o forte aumento de preços force as pessoas a usar alternativas de baixa qualidade e que o declínio no uso de preservativos leve a um aumento nas infecções em dois a três anos.
A situação é agravada por cortes de financiamento de doadores internacionais como a USAID. Embora o governo indiano tenha aumentado o orçamento da Organização Nacional de Controle da AIDS para 2026-2027 para 249 milhões de dólares, ativistas consideram essas medidas insuficientes.
Em março, o Ministério do Comércio e Indústria da Índia lançou um programa de seguro de crédito à exportação de 51,5 milhões de dólares para compensar as perdas relacionadas à guerra. No entanto, defensores dos direitos humanos exigem intervenção no mercado interno. O ativista LGBT Harish Iyer instou o governo a abolir os impostos sobre os preservativos e a distribuí-los gratuitamente, citando o programa nacional de planejamento familiar Nirodh, ativo desde 1968.
“Os preservativos não são para prazer, são para a vida”, afirmou Iyer. “Eles devem ser considerados bens de primeira necessidade. Uma crise nesta indústria atingirá a comunidade LGBT e criará um fardo a longo prazo para a economia.”
A Manforce, uma das maiores fabricantes de preservativos da Índia, recusou-se a comentar a situação para a imprensa.